Capítulo 1: 1 a 8

 

 

 

Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou e as notificou a João, seu servo, 2 o qual testificou da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus Cristo, e de tudo o que tem visto. 3 Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo. 4 João, às sete igrejas que estão na Ásia: Graça e paz seja convosco da parte daquele que é, e que era, e que há de vir, e da dos sete Espíritos que estão diante do seu trono; 5 e da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dos mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos ama, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, 6 e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai, a ele, glória e poder para todo o sempre. Amém! 7 Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim! Amém! 8 Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-poderoso.1

Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou e as notificou a João, seu servo

Apocalipse termo grego que quer dizer revelação.

Tornou-se um tipo de literatura comum à época de Jesus e mesmo um pouco antes; na literatura hebraica existiam vários “Apocalipses”. Era uma literatura escatológica, isto é, que se referia ao fim dos tempos.

Podemos dizer que tal literatura era uma extensão do gênero profético, tendo por uma das diferenças que enquanto o profeta ouvia a revelação e a transmitia de forma oral, o Apocalipse era retratado em um livro.

Outra característica desta literatura é que ela era altamente simbólica, tudo era traduzido por símbolos, para entender seu conteúdo e apreender o sentido da revelação temos de retraduzir estes símbolos.

O autor deste Apocalipse é tido pela tradição cristã como sendo João, o Evangelista, que o escreveu quando estava exilado na ilha de Patmos no final do primeiro século de nossa era na época de Domiciano.

Alguns estudiosos tentam situá-lo na época de Nero, entretanto, esta não parece ser a realidade; tentam mostrar que ele teria sido escrito antes do Quarto Evangelho, o que também não tem comprovação e não parece ser a ordem natural.

Tudo indica que foi escrito após o Evangelho atribuído ao Discípulo Amado.

No primeiro versículo temos que é uma revelação vinda de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, e que foi notificada a João através de seu anjo.

Depreendemos daí tratar-se de uma obra mediúnica. Jesus, como médium de Deus a revelou ao Anjo, que como um médium espiritual a transmitiu a João, o médium encarnado, que materializou o texto para nós.

Muitos veem aqui como o anjo sendo o próprio Espírito Jesus, Ele como sendo o Anjo de Deus por excelência. Todavia alguns versículos que ainda iremos comentar falam em semelhança deste anjo revelador com o Filho do Homem, e no último capítulo desta Revelação o próprio Jesus diz:

Eu, Jesus, enviei o meu anjo, para vos testificar estas coisas nas igrejas. Eu sou a Raiz e a Geração de Davi, a resplandecente Estrela da manhã.2

Talvez esteja presente aqui uma primeira prefiguração do Espírito de Verdade que veremos permeia todo Apocalipse, como sendo uma Revelação de Ordem Superior.

Ainda temos no primeiro versículo o objetivo da obra, mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer.

Lembramos novamente as palavras de Emmanuel:

Todos os fatos posteriores à existência de João estão ali previstos. É verdade que frequentemente a descrição apostólica penetra o terreno mais obscuro; vê-se que a sua expressão humana não pôde copiar fielmente a expressão divina das suas visões de palpitante interesse para a história da Humanidade…3

Brevemente não deve ser visto como um período de tempo fechado, demarcado, esta tem sido uma das dificuldades de todos os estudiosos deste tipo de literatura; é preciso compreendermos que é uma revelação espiritual, vinda de Deus, e que o tempo de Deus é diverso do nosso. Para um Cristo, Espírito que está integrado em Deus, alguns milênios podem significar segundos. Temos de levar isto em conta.

Através da palavra servo temos já, uma compreensão importante, o Cristão, que a quem a revelação é dirigida, deve ser um servo de Deus e de Seu Cristo, isto é, deve servi-Los servindo aos seus semelhantes. A palavra é repetida se referindo também ao apóstolo que é também um servo produtor do Bem.

2 o qual testificou da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus Cristo, e de tudo o que tem visto.

Quem por excelência testificou da palavra de Deus foi Jesus-Cristo, todavia ao que dá a entender aqui o Evangelista refere-se a ele mesmo, João, que foi também testemunha do testemunho de Jesus.

João, o evangelista, como os demais apóstolos iniciadores do Movimento de Jesus, não tiveram vida fácil. Para divulgar o Evangelho eles tiveram que dar a própria vida, uns se martirizando literalmente, outros, como é o caso de João, doando toda a sua vida em favor do trabalho do Evangelho. Desta forma podemos afirmar que ele também, de acordo com a sua condição evolutiva testificou da palavra de Deus e do testemunho de Jesus-Cristo.

O nono versículo deste primeiro capítulo também insinua esta possibilidade:

Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus.4

E aqui é preciso entender que só devido a esta fidelidade e a este testemunho é que ele pôde receber este revelação através de um desdobramento espiritual profundo como foi o caso. Se ele não estivesse ajustado ao plano operacional do Evangelho, jamais poderia trazer ao mundo esta obra que é bem a síntese de toda a Boa Nova.

Outro fato importante a ser destacado é a afirmativa de que ele testificou, e aqui podemos dizer, fielmente, o que viu. Pois há casos em que médiuns veem algo e distorcem o que viram, influem na comunicação de tal modo que esta se desfigura.

Outros meditam no Evangelho, mas insistem em interpretá-lo segundo as suas conveniências e não, deixando que o Verbo Divino diga a eles o que é preciso em favor de seu crescimento moral e espiritual.

3 Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo.

Bem aventurado, isto é, feliz.

Aquele que lê; como já dissemos o Apocalipse é um livro, desta forma era lido; apesar de ser uma realidade que àquele tempo grande era o número dos analfabetos, o que leva o evangelista a completar: e os que ouvem, pois tais livros eram lidos nas assembleias, como as cartas apostólicas e os Evangelhos, para que todos pudessem se inteirar de seus valiosos ensinamentos.

Palavras desta profecia; trata-se do conteúdo do livro, da revelação propriamente dita. Revelação esta que se mostrou ser muito importante e valiosa com o decorrer dos tempos. Muitos não a compreendendo não lhe deram o valor devido, mas nos dias de hoje já é quase unânime entre os cristãos, o valor desta obra a ser implantada no coração de todos nós.

Importa aqui dizer que as palavras desta profecia em nada contradizem os quatro Evangelhos, muito pelo contrário, dão a eles vida e o concluem de forma magistral.

E guardam as coisas que nela estão escritas;guardaraqui deve ser entendido como vivenciar, dar o devido valor fazendo destas palavras roteiro de vida.

Ao revelar isto bem no início da obra, o Espírito Jesus vem nos chamar a atenção não só para a necessidade de ler este livro com muito carinho, mas também de estudá-lo minuciosamente, pois pela introdução ele já adianta, muito conteúdo importante vem aí para a devida orientação daquele que já despertou para a necessidade de se autoeducar à luz das Verdades de Deus.

porque o tempo está próximo; qual o tempo está próximo? Isso indica o tempo do fim, ou o final dos tempos. Aqui não devemos confundir com o final do mundo, mas de um fim de ciclo em que haverá uma separação do joio do trigo, do bem do mal, e que aqueles Espíritos que insistirem em fazer oposição ao Cristo e não evoluírem da forma desejada, serão levados a outros mundos adequados ao seu estado evolutivo.

Em linguagem bíblica podemos dizer que eles serão os “Adãos” de outros mundos.

Entretanto, mais uma vez dizemos que se trata de um “próximo” relativo. Já àquele tempo muitos aguardavam que estas coisas se dariam já; com o decorrer do tempo foi sendo visto que este tempo iria variar, e hoje sabemos que se muitas coisas já ocorreram para determinado grupo de Espíritos, para outros ainda vão ocorrer, e tudo dependerá de como será o comportamento de cada um. Na realidade este próximo será mais ou mesmo distante de acordo com o que cada um fizer da sua vida, pois se existem previsões que tudo indica já foram cumpridas, outras existem a se realizarem de forma coletiva e relativo a povos vários; não podendo também esquecermos que há também o “apocalipse” a ser vivido por cada um individualmente.

4 João, às sete igrejas que estão na Ásia: Graça e paz seja convosco da parte daquele que é, e que era, e que há de vir, e da dos sete Espíritos que estão diante do seu trono

João; é o intermediário, o médium da revelação. Muitos estudiosos têm afirmado ser outro João que não o evangelista o autor do Apocalipse. Tratar-se-ia de um presbítero da igreja de Éfeso. Pode ser, mas o mais provável é que seja mesmo o Evangelista quem recebeu a revelação.

É preciso lembrar, que João já era bem idoso nesta época, e que tinha sofrido bastante, o que tornaria difícil que ele pudesse realizar o esforço de escrever todo este livro, o que não era fácil devido às dificuldades de escrita da época. Assim, é possível que ele tenha recebido a revelação por via mediúnica e ditado a um de seus discípulos, que poderia muito bem ser este João o presbítero e que este de fato é quem tenha escrito o Apocalipse. Todavia, se isto ocorreu desta forma, não deixa de ser o evangelista o autor do Apocalipse, como Paulo foi o autor de suas cartas muitas vezes escritas pelas mãos de outros.

Às sete igrejas que estão na Ásia; a revelação era dirigida às sete igrejas situadas na Ásia Menor, hoje Turquia. Estas não eram todas as igrejas cristãs da época na região, é preciso ver na expressão um símbolo para todas as comunidades cristãs de um modo geral.

O número sete é de grande significação simbólica na literatura hebraica era um número sagrado. Tem por significado integralidade, perfeição. Sete são os dias da criação; quem matasse Caim seria castigado sete vezes; Noé levaria para a arca sete pares de cada espécie de animal puro, e muitos outros exemplos poderiam ser dados, de tal forma que estas sete igrejas representam a totalidade de todas as igrejas cristãs; como podemos também ver nelas sete componentes de nossa própria personalidade, ou a igreja cristã em sete fases nestes dois mil anos de cristianismo, entre outras significações possíveis.

da parte daquele que é, e que era, e que há de vir; João é o médium e tem ampla consciência de sua condição de apenas intermediário, ele falava da parte daquele que é, e que era, e que há de vir, ou seja, de Deus…

e da dos sete Espíritos que estão diante do seu trono; e da parte dos sete (novamente a simbologia) Espíritos que aqui podem representar os mentores espirituais de cada igreja. O Espiritismo nos abre esta possibilidade, a de que cada grupo que se reúne para uma determinada finalidade na área do Bem ter vinculado a ele um mentor espiritual.

Estar diante do trono de Deus é estar como que na antecâmara do Criador, são aqueles Espíritos que já estão mais comprometidos com o Serviço de Deus e num grau maior de afinidade com Ele.

Em nosso orbe, que tem Jesus como Governador Espiritual do Planeta, podem ser os Ministros do Cristo, o Espírito Santo, que é o grupo de Espíritos que auxiliam Jesus na governança do Orbe desde a fundação do mesmo.

5 e da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dos mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos ama, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados

João confirma ser médium da parte de Jesus Cristo, pois era medianeiro de suas ideias na Terra através da vivência e da divulgação do Evangelho, o que nós também podemos ser.

Fiel testemunha; testemunhamos o que vimos. Jesus é testemunha do Pai porque O viu através de Sua compreensão superior, através de Sua integração Nele. Por isso é fiel testemunha, pois além de vê-Lo, viveu-O integralmente. Desta forma pôde dizer: Quem me vê a mim vê o Pai5

Não que ele fosse o Pai, mas que se fazendo um espelho no mais alto grau de pureza refletiu Deus no máximo que nossa compreensão pode perceber. Deste modo, se quisermos ver Deus na limitação de nosso entendimento, basta ver Jesus, Ele mostrou-nos o Pai por ser Fiel Testemunha Dele.

Primogênito dos mortos; primogênito é o que nasceu primeiro. O objetivo da vida é nos fazer nascer para a vida verdadeira que é a vida espiritual nos padrões superiores de Deus. Todos estamos gestando em nós o Filho do homem que representa o grau máximo de evolução que podemos alcançar.

Dentro desta conceituação, entre nós, os ainda mortos, Jesus foi o que nasceu primeiro para a vida superior em Deus, é deste modo, Primogênito dos mortos.

Neste passo é preciso interpretar este texto à luz de Romanos, 8: 29:

porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.

O que o apóstolo Paulo quer dizer com este verso? Entre tantas interpretações, como é comum na literatura evangélica, que todos estamos predestinados a também sermos Filhos de Deus como Jesus é, ou seja, que vamos participar da mesma condição de filiação que Jesus. E é a este fim que o Apocalipse como síntese de todo Evangelho nos conduz.

Príncipe dos reis da terra; é avocada aqui a condição de Cristo, de Messias, para Jesus, o que nós hoje, Espíritas, temos como Governador Espiritual do Orbe.

A condição espiritual vai promovendo o Ser a estágios cada vez mais amplos dentro da hierarquia universal. Do mesmo modo que, numa empresa, um funcionário que se aprimora cresce hierarquicamente em seus quadros, no Mundo Espiritual se dá o mesmo, a ponto de um Espírito quando adquire condições, ser chamado pelo Criador para exercer funções mais amplas ao nível de um Cristo, por exemplo.

Jesus é, portanto, príncipe dos reis da terra, aqui há um jogo de palavras, pois Jesus é príncipe por ser o Filho do Rei que é Deus, e aqui o evangelista fala desta condição de Filho. Mas, hierarquicamente é superior aos reis da Terra, pois estes só governam transitoriamente, sua posição nem sempre é conquistada por méritos, e se eles as têm, é por permissão de Jesus que é o Plenipotenciário Divino em nosso planeta. Deste modo fica claro que o poder no Mundo Espiritual é não só mais amplo do que no Universo físico, como também tem muito mais valor. Aliás, só ele tem valor imorredouro.

Àquele que nos ama; neste momento o evangelista revela o porquê desta condição de Jesus: Ele é Aquele que nos ama… é simples, e só isto basta.

Deus é amor, esta é a característica básica de Deus. Jesus se tornou Cristo, e todo Espírito poderá se tornar também, porque identificou em grau máximo com o amor de Deus. Como dissemos, Ele, no plano prático da vida, O reflete no maior grau de pureza possível.

Aqui lembramos nosso querido Honório Abreu:

Todo aquele que tem uma consciência do amor e o dinamiza se incorpora na mentalidade crística…

Deus é o amor irradiante, o Cristo, na sua abrangência nos corações, é o plano operacional desse Amor.

e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados. O sangue nos remete à questão do sacrifício, ao símbolo do sacrifício do cordeiro que é a morte de Jesus.

Ampliando nosso entendimento podemos ver aqui a própria encarnação do Cristo em seu sentido geral, uma encarnação de testemunho que culminou com a morte na cruz.

Deste modo, podemos fazer um paralelo com a nossa vida dentro de uma proposta evolucional e ver este sangue representando a própria necessidade reencarnatória.

A carne e o sangue, como em Hebreus, no segundo capítulo, representam o corpo que torna possível a reencarnação. E aqui, quando é dito da oportunidade de lavar os pecados no sangue do cordeiro, que representa Jesus-Cristo, lembramos da obra Nosso Lar, quando Lísias nos diz:

Imagine que cada um de nós, renascendo no planeta, somos portadores de um fato sujo, para lavar no tanque da vida humana. Essa roupa imunda é o corpo causal, tecido por nossas mãos, nas experiências anteriores. Compartilhando, de novo, as bênçãos da oportunidade terrestre, esquecemos, porém, o objetivo essencial, e, ao invés de nos purificarmos pelo esforço da lavagem, manchamo-nos ainda mais, contraindo novos laços e encarcerando-nos a nós mesmos em verdadeira escravidão.6

Assim, aprendemos que através das reencarnações somos lavados de nossos erros (pecados) até nos tornarmos puros e não mais precisarmos reencarnar.

Todavia não podemos deixar de comentar aqui o que significa ser lavado pelo sangue de Jesus, pois existem outros textos que falam a mesma coisa e isto tem feito confusão em muitos estudiosos das escrituras.

O sangue como dissemos representa o testemunho e o sacrifício de Jesus. É, deste modo, o plano aplicativo do Evangelho. Quando se diz que Jesus lavou os nossos pecados com o seu sangue, quer dizer que através do seu testemunho sacrificial ele exemplificou ensinando-nos a fazer o mesmo.

Nós, através das reencarnações, se operacionalizarmos o Evangelho, que é sacrifício por amor, seremos purificados, isto é, lavados pelo sangue de Jesus, que é o Seu exemplo. O sangue no organismo humano é o líquido que circula nas artérias e veias bombeado pelo coração, transportando gases, nutrientes e elementos necessários à vida. Do mesmo modo o amor testemunhado deve circular levando vida, é o que mantém o Espírito no Plano Superior de Deus.

6 …e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai, a ele, glória e poder para todo o sempre. Amém!

Reis e Sacerdotes representam os dois maiores poderes existentes. Rei significando poder material, e sacerdote poder espiritual. O seguidor de Cristo purificado pelo testemunho do amor se tornará rei e sacerdote, terá poder temporal e espiritual, para Deus, ou seja, mesmo o poder material será por mérito e usado em favor do Bem comum. Assim, será um poder autêntico e definitivo, pois fundamentado na autoridade moral:

E aconteceu que, concluindo Jesus este discurso, a multidão se admirou da sua doutrina, porquanto os ensinava com autoridade e não como os escribas.7

E será um poder que ainda nem nós mesmos podemos compreender, pois o redator bíblico usa a expressão seu Pai, referindo-se a Deus na concepção do Cristo, que é um entendimento que ainda não temos.

Isto quer dizer que se ajustarmos aos Desígnios Superiores muito mais coisas, ainda maior do que supomos, nos aguardam. É como aqueles Espíritos que testemunharam por aqui o Evangelho com fidelidade e ao desencarnarem confessam: “tudo que sofri, tudo que passei, é muito pouco diante da grandeza do que sinto agora nesta doce e suave espiritualidade”.

Deste modo, por termos vindo Dele, Deus Criador, temos a intuição da grandeza do Reino, mas não temos de forma clara. O certo é que tudo de bom, toda grandeza e realeza vem de Deus e de sua Misericórdia, por isso o autor é claro:

glória e poder para todo o sempre. Amém!

Sendo este amém, a plena compreensão e realização da proposta divina em caráter finalístico. Dizemos muitos “améns” em nossa vida, mas esta expressão só será mesmo usada por nós com autenticidade, no dia em que vivermos a proposta educativa do Evangelho como Jesus viveu, pois amém significa verdade e a Verdade Universal, só quando a vivermos.

Esta é a proposta do Apocalipse, a de que vivamos como Jesus viveu para que encerremos em nossa história a necessidade de evoluir pelos impactos das dores e dos sofrimentos, aderindo a uma proposta clara de amor.

poder para todo o sempre; trata-se de uma expressão que quer dizer “domínio pelo séculos dos séculos”, dizendo sobre um poder sobre o tempo, sobre todas as coisas transitórias.

Deus tem este poder, pois é o Autor do tempo, Existe e Cria antes dele. Quando nos ajustarmos plenamente a Deus, o tempo será relativo para nós também, transcenderemos às dimensões tempo e espaço com naturalidade. Não é difícil compreender isto, o amor, que é o Sentimento Divino por Excelência, mesmo que nós ainda não o compreendamos, mesmo no nível baixo de nossa realidade, transcende ao que entendemos como tempo; de outra forma, quando nos integramos em uma tarefa com dedicação e unidade de alma, a realizamos da melhor forma e nem notamos o tempo passar… São experiências que em nosso campo ainda restrito podemos confirmar a relatividade de tudo que é criado como instrumento de didática para a nossa realização evolutiva.

7 Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim! Amém!

Este versículo contém Daniel, 7: 13, Zacarias, 12: 10 e 14. Podemos dizer que de forma sintética este é o tema do Apocalipse, a segunda vinda de Jesus.

Ainda vamos comentar mais sobre esta segunda vinda, mas é preciso que se compreenda que ela não será uma vinda física do Senhor como a literalidade do Evangelho nos propõe. A volta de Jesus se dará no plano de redenção pessoal. Jesus veio e trouxe-nos os instrumentos de nossa libertação, ele voltará em nós pela utilização devida destes instrumentos. É lógico que quando isto acontecer no plano da individualidade nós vamos nos encontrar pessoalmente com ele, e será em grande estilo e glória este encontro, é o que depreendemos de vários encontros com ele que tiveram discípulos fiéis seus como vimos várias vezes na literatura espírita. A ressurreição definitiva será espiritual e nada nos faz crer que ela será coletiva num mesmo momento para todos.

Vários Espíritos já realizaram esta segunda vinda do Cristo em si, nós também a realizaremos, e todos realizarão; quando?

Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai.8

Interessante notar que ao responder a Simão Pedro num diálogo após sua ressurreição narrado no último capítulo do Evangelho de João, quando questionado sobre o discípulo amado que o seguia naquela ocasião, Jesus disse:

Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Quanto a ti, segue-me.9

João, que era este a quem Simão Pedro se referia é o autor do Apocalipse, ele foi o único dos apóstolos que sobreviveu até os últimos anos do primeiro século, e foi quem nos trouxe esta Revelação, que de certa forma podemos dizer, é Jesus voltando através de Sua mensagem, que é justamente essa, a da necessidade de vivenciarmos o Evangelho para assim desativarmos de nós a necessidade de sofrermos os impactos da Lei. O final deste texto nos fala sobre a Jerusalém Celestial e sobre o estabelecimento da ordem com a volta de Jesus.

Não será, de certa forma, o Apocalipse, ao invés de uma tragédia, como muitos têm visto, uma volta de Jesus? E quando João o recebeu? Após testemunhar o Evangelho por longos anos a ponto de ser exilado da ilha de Patmos por desafiar o mundo e seus valores transitórios. Patmos foi para João, como que sua crucificação, um coroamento de sua missão, pela qual Jesus pôde voltar através deste Apocalipse que ora estudamos.

Portanto, esta vinda é relativa, ela acontecerá, não temos dúvida, mas só será definitiva quando for em nossos corações renovados.

Eis que vem com as nuvens; nuvens definindo algo do Alto. Jesus se manifesta sempre num plano de ordem superior. Para muitos uma nuvem pode significar o frescor, o alívio de um sol muito quente; para outros uma chuva promissora para sua lavoura; outros, entretanto, a verão como uma tragédia, pois ela pode ser também prenunciadora de uma chuva que destrua seus bens e até mesmo suas conquistas de anos.

Todavia, a mensagem do Evangelho é esta mesmo, quem disse que ele é sempre alegria? Aliás, deveria ser, mesmo na tristeza transitória. Muitas vezes, é nas grandes perdas que nos encontramos com Deus e o realizamos em nossa vida.

Assim, amar, nem sempre é só perdoar, nem sempre é só fazer caridade. Como um juiz deve se manifestar, ou manifestar amor, diante de um réu culpado, que assassinou, por exemplo? Não é condenando-o? Amor também tem suas expressões de justiça.

Jesus virá sim com as nuvens, do Alto, mas às vezes tão rarefeito que nem o perceberemos. Estejamos atentos…

e todo olho o verá; trata-se de um olho que tem capacidade de ver para além do físico, uma visão transcendente, uma compreensão superior.

Como é que Jesus se manifesta? Através daqueles que O vivem. Muitos podem falar de Jesus, lerem o Evangelho em voz alta, e não comunicarem a sublime mensagem da Boa Nova; não O veremos através destes. Entretanto, mesmo se desvinculado de qualquer escola religiosa alguém viver a mensagem do amor, ela é vista por todos.

não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte.10

Temos um exemplo claro disto através de nosso querido Chico Xavier. Ele foi sempre a manifestação viva do Evangelho, não o estamos endeusando, ele não era perfeito, mas fez sempre mais do que podia em favor do Cristo e de sua autoiluminação. Ele recebeu pessoas diversas, das mais variadas religiões, todos que com ele estiveram, independente de crença foram claros, “há nele algo especial”. Para aqueles que foram mais atentos, a vida nunca mais foi a mesma. Ele não é unanimidade, nem poderia ser em nosso mundo, todavia, todos os respeitam, ninguém há que consiga dele falar mal se estiver em seu juízo perfeito, mesmo que discorde de suas convicções religiosas.

Todo olho o viu, viu Jesus através do Chico. Muitos mudaram sua realidade mental.

Assim será com todos quando definitivamente vivermos a essência da mensagem cristã, mesmo se através de outras escolas religiosas, pois podemos dizer o mesmo de uma Madre Tereza de Calcutá, de um Gandhi, ou de outros discípulos do Senhor.

E todo olho o verá…

até os mesmos que o traspassaram; diz respeito aos que não compreenderam a Mensagem da Cruz.

Mas sempre chega o momento de iluminação e da compreensão, mesmo que longe no tempo.

O testemunho é a melhor maneira de convencer alguém de uma realidade. Dissemos do Chico, quantos através de sua vida operante no Bem não se convenceram da necessidade evangélica?

Entretanto, existe um tempo de amadurecimento. Só quando há uma ressonância no íntimo a criatura vê e enxerga.

No primeiro momento somos acusadores, infringimos a ordem, não compreendemos a mensagem de amor. Entretanto, a vida através de seus processos dolorosos, das perdas, seja dos valores do mundo, ou entes queridos, despertam a nossa realidade espiritual.

Lembrando novamente do Chico, quantos o acusaram, entretanto, depois da perda de uma alma amada, puderam através justamente dele encontrar a paz e a harmonia interior. Falsidade? Não, despertamento espiritual. Isto é mais do que o olho físico pode ver.

Ele acontece, na maioria das vezes, quando de nossas fraquezas em relação às coisas do mundo. Nestes momentos, até os mesmos que trespassaram Jesus vão O reconhecer como definitivo libertador de suas consciências.

e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim! Amém! Àquele tempo o povo hebreu era divido em tribos, eram as doze tribos de Israel. Estas tribos representavam a totalidade do que eles tinham como “povo de Deus”.

O número doze tem, dentro da simbologia, este caráter de universalidade, assim, devemos abrir este entendimento e ver aqui toda humanidade. Quando no sétimo capítulo surge o número dos assinalados, os cento e quarenta e quatro mil, trata-se de mais uma equação do doze projetando assim, ao infinito este número.

Portanto, toda tribo expressa toda humanidade cristã e não cristã, pois em verdade, somos todos cristãos já que somos governados pelo Cristo, basta aceitar esta direção.

Se lamentarão; expressa um pesar por uma perda, no contexto original esta palavra expressa um bater no peito com aflição, com tristeza, pela morte de alguém. Significa aquela perda de tempo por não ter aceito o Cristo antes, pelo tanto que deixamos de fazer.

Percebemos através da literatura mediúnica que este é um sentimento comum dos Espíritos quando desencarnam e tomam consciência da realidade da vida essencial, sempre veem que perderam tempo, por mais que fizeram é pouco diante da Verdade Universal do Bem e da necessidade de colaborar.

8 Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-poderoso

Temos aqui uma expressão da Divindade. Devemos lembrar que em última instância o Apocalipse é de Deus, é uma revelação que Jesus-Cristo recebeu de Deus e através do anjo deu ao redator em nosso plano que é João.

Temos assim algumas expressões que simbolizam Deus:

Eu Sou; era o nome de Deus dado a Moisés11. O judeu repeitava tanto este Nome, que não pronunciava o verbo ser na primeira pessoa do singular para não usar o nome de Deus em vão.

Jesus, apesar de ser judeu, costumava assim dizer, pois sabia ser o Cristo, o Unigênito, Aquele que já se integrou na Unidade Divina. Espíritos deste nível evolutivo podem às vezes transpor para si um atributo de Deus para melhor se expressarem entre os homens.

Alfa e Ômega; primeira e última letra do alfabeto grego, significando justamente a próxima expressão do texto, ou seja, o princípio e o fim.

Só Deus é o Princípio de todas as coisas, a doutrina espírita o revela como Causa Primária de todas as coisas12. É o fim no que diz respeito à nossa predestinação em matéria de perfeição.

Vamos nos aperfeiçoar de tal modo que nos integraremos na Unidade Divina; não que vamos ser como Deus, não, será uma perfeição relativa à nossa posição na hierarquia celestial. É o que às vezes chamamos de “volta ao Criador”, pois Dele saímos, e para Ele voltaremos em Amor e Verdade.

diz o Senhor; interessante esta expressão, ela não significa um dizer com palavras proferidas por uma boca, mas o médium revelador a percebe. Podemos dizer que tal se dá quando o medianeiro entra no “tempo” de Deus.

Que é, e que era, e que há de vir; mais uma expressão dizendo da transcendência do Criador em relação ao tempo. Ele é, era e será, tudo num mesmo instante; é passado, presente e futuro. Em realidade podemos dizer que Ele é um Eterno presente, para Ele o tempo não passa, o tempo é.

O Todo-poderoso; Aquele que tem controle de todas as coisas; é Onisciente, Onipresente e Onipotente.

 

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1 Apocalipse, 1: 1 a 8

2 Apocalipse, 22: 16

3 [F. C. XAVIER / Emmanuel (Espírito)1980], cap. 14

4 Apocalipse, 1: 9

5 João, 14: 9

6 XAVIER, Francisco C./ André Luiz (Espírito). Nosso Lar, 41ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1994; Comentário de Lísias no cap.12.

7 Mateus, 7: 28 e 29

8 Mateus, 24: 36

9 João, 21: 22

10 Mateus, 5: 14

11 Cf. Êxodo, 3: 14

12 (KARDEC, O Livro dos Espíritos. 50ª ed. 1980), Q. 1

 


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