Carta à Igreja de Éfeso

 

 

Escreve ao anjo da igreja que está em Éfeso: Isto diz aquele que tem na sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro: 2 Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos e o não são e tu os achaste mentirosos; 3 e sofreste e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome e não te cansaste. 4 Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor. 5 Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres. 6 Tens, porém, isto: que aborreces as obras dos nicolaítas, as quais eu também aborreço. 7 Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida que está no paraíso de Deus.1

Neste e no próximo capítulo vamos ter as observações mais específicas para cada igreja.

Como dissemos é importante observar o contexto da Revelação; nestes capítulos temos em linhas gerais um retrato da Ásia cristã no fim do primeiro século de nossa era. Entretanto a abordagem histórica não será nossa prioridade, importa-nos mais contextualizar nosso momento atual e ver o que podemos fazer com estas orientações tanto em nosso movimento cristão, quanto, e principalmente, em termos da individualidade.

O Apocalipse, como todo o Evangelho, tem uma função eminentemente reeducativa, e em termos de reeducação, não há como evangelizar as massas, assim, é preciso trabalhar o campo pessoal e desta forma atingirmos o objetivo maior com o andamento da evolução.

Todas as sete cartas têm uma mesma estrutura. Iniciam com as mesmas palavras: “Eu sei as tuas obras”, sempre o autor Espiritual, Jesus, se manifestando na primeira pessoa do singular. Em seguida, Ele, o Filho do homem, se caracteriza, depois a comunidade é elogiada em suas qualidades, à exceção de Laodiceia, e advertida por seus erros, à exceção desta vez fica por conta de Esmirna e Filadelfia. Depois temos as promessas aos que vencerem e termina a carta com uma recordação dos Evangelhos: “Quem tem ouvidos ouça…”.

Escreve ao anjo da igreja que está em Éfeso: Isto diz aquele que tem na sua destra as sete estrelas, que anda no meio dos sete castiçais de ouro:

Todas as expressões deste versículo já foram por nós comentadas anteriormente, razão pela qual não vamos repetir comentando novamente.

Importa apenas apresentar Éfeso como a receptora destas primeiras orientações.

Éfeso talvez fosse a mais importante entre estas províncias citadas. Era um centro religioso, nela estava o templo de Ártemis, uma das maiores maravilhas do mundo antigo. Podemos depreender de Atos, 19: 19, que era famosa em ocultismo e práticas de magia.

A cidade era importante centro de artes e das letras, tinha uma grande biblioteca e um teatro com lugares para 25 mil pessoas assentadas, foi a pátria de grandes celebridades, entre elas o filósofo Heráclito.

Éfeso foi fundamental para o desenvolvimento do cristianismo, Paulo esteve ali pela primeira vez por volta do ano 52 de nossa era, a fim de atender a insistentes chamados de João2 que já atuava na cidade, para a fundação definitiva da igreja local.

Além de João, Maria, a mãe de Jesus, também morava em Éfeso nesta época, segundo Emmanuel, Paulo ainda em sua primeira visita à cidade esteve com a Mãe Santíssima e interessou-se muito em escrever a história do Mestre com as suas informações.

2 Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos e o não são e tu os achaste mentirosos;

Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho; eu sei, define a capacidade perceptiva do Filho do homem, Ele não apenas vê, Ele sabe. E como dissemos, todas as sete cartas iniciam assim, ou seja, Ele sabe tudo que está sob sua jurisdição, por isso tem as “sete estrelas” na sua destra.

No campo íntimo representa a nossa consciência crística, nós também sabemos o que ocorre na nossa intimidade. Isto é muito importante para o processo reeducativo, que como insistimos, é a nossa meta. Assim, é de grande valia este saber, e administrá-lo com sabedoria. Trata-se do autoconhecimento que deve tornar-se dinâmico, efetivo produtor de virtudes em nós.

Obras e trabalho; numa visão rápida pode-se confundir os dois, mas na realidade são situações distintas.

O trabalho é o processo, a obra o resultado. A obra é consequência do trabalho, entretanto, este nem sempre gera uma obra palpável.

Todavia podemos assegurar, quase sempre no que se refere às questões espirituais, o processo é mais importante do que o resultado. A obra deverá ser feita, se nós não a fizermos vem alguém e faz. O trabalho, todavia, para nós é insubstituível, porque é através dele que aprendemos, que geramos a virtude e a fixamos em nós. Quando outro faz a obra, o trabalho é dele, assim, ele é quem progride.

Desta forma, aprendemos, que importa-nos trabalhar sem nos preocuparmos com as obras, que são os resultados propriamente ditos. Nós devemos fazer de nossa parte, o resultado não nos pertence. Sob este ponto de vista é sempre atual a observação do Apóstolo Paulo:

Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus.3

Ainda podemos acrescentar que a obra pode passar, até deixar de existir um dia, quanto ao trabalho ele existirá sempre, em todos os níveis, já que é um dos artigos da Lei de Deus.

Outra questão a considerar, quanto mais o trabalho é fundamentado nas coisas materiais, mais ele cansa, desgasta aquele que trabalha; o trabalho espiritual não cansa, ele repõe as energias, quanto mais se trabalha mais se sente recompensado e com forças para trabalhar, ele é alimento…

Disse-lhes Jesus: A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra4.

Assim, podemos concluir porque Deus trabalha até agora, o Cristo também, e jamais se cansam. Se quisermos também realizar incessantemente e nos mantermos no equilíbrio universal, façamos o mesmo, trabalhemos em uníssono com o Pai criador, que é Espírito, dentro dos parâmetros de Sua Lei.

e a tua paciência; paciência, em grego o apóstolo escreveu hupomone, que ultrapassa o que entendemos por “paciência”. Significa, estabilidade, constância, tolerância; é característica da pessoa que não se desvia de seu propósito e de sua lealdade à fé e a piedade mesmo diante das maiores provações e sofrimentos.5

É, portanto, uma paciência dinâmica, que persevera, que age no Bem.

Esta será uma conquista nossa quando definitivamente compreendermos o mecanismo de funcionamento da Lei de Deus, que não podemos agir fora de seus princípios, que há sabedoria em obedecê-la.

e que não podes sofrer os maus; literalmente significa: que não apoia, e nem pode suportar os homens de natureza perversa.

Jesus através de Seu Evangelho nos ensina que devemos ter paciência, compreensão, e amor com todas as criaturas; devemos orar pelos que nos perseguem, que nos caluniam e nos querem mal, entretanto, que jamais fôssemos conviventes com o mal, com o erro de um modo geral; é aquela máxima, ame o pecador, mas não tolere o pecado.

Esta é a ideia do versículo, não podemos suportar os homens perversos enquanto eles forem instrumentos da maldade, a vida tem os seus recursos e encaminhará também eles para o Bem, afinal, todos são filhos de Deus. Todavia, enquanto não se dispuserem a repensar suas condutas, nada poderemos fazer por eles a não ser envolvermo-los em vibrações de equilíbrio e harmonia.

e puseste à prova os que dizem ser apóstolos e o não são; trata-se de um teste de avaliação, uma análise. A doutrina espírita nos ensina a verificar, a buscar comprovação, não podemos ser ingênuos.

Esta prova pode ser simplesmente através de dar uma oportunidade da criatura se manifestar, e nós temos o dever, de avaliar com perspicácia.

Vejamos que o texto diz que eles mesmos se diziam apóstolos, normalmente aquele que diz ser não é, pois o que é demonstra ser com atitudes e por isto não precisa se mostrar, pois todos veem naturalmente.

Vemos hoje em nossas Casas Espíritas muitos Espíritos que se dizem portadores de grandes verdades vindas de um Mundo Espiritual superior; tenhamos cautela, é preciso por à prova estes Espíritos, sentirem sua verdadeira evolução moral, só se esta ficar comprovada é que podemos lhes dar crédito. O mesmo é preciso fazer com médiuns e tarefeiros que se supervalorizam ou que demonstram orgulho e vaidade em tudo que fazem, estes dizem ser apóstolos e não são; assim, que como os da igreja de Éfeso, possamos também ser parabenizados por não sermos coniventes com eles, todavia, dentro de uma proposta cristã de afeto e compreensão.

e tu os achaste mentirosos; esta é uma questão delicada, pois não é fácil, agindo de forma cristã, achar que alguém é mentiroso, que a mensagem que traz é uma farsa. O mais difícil é percebermos tudo isto sem nos deixar contaminar por sentimentos inferiores, pois também temos em nosso currículo vaidade e presunção de sobra.

Aliás, o verbo aqui usado que foi traduzido por “achaste” dentro do significado original no idioma do Apocalipse, quer dizer, “descobrir”, “achar através de uma averiguação, de um exame”. Portanto, foram eles, os mentirosos que se revelaram, ou que foram achados, o que na maioria das vezes acontece naturalmente.

Ainda assim, se dentro de uma proposta sincera, descobrimos que alguém está mentindo, ou que uma revelação não é verdadeira, devemos rechaçá-la, é princípio doutrinário, conforme orientação dos Espíritos Codificadores, que é preferível nos privarmos de dez verdades a aceitarmos uma mentira.

Deste modo, estejamos alertas, o próprio médium de Patmos orientou-nos:

Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora.6

3 e sofreste e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome e não te cansaste.

e sofreste e tens paciência; novamente o mesmo sentido, de uma paciência dinâmica, que age no Bem, que persevera. A colocação provavelmente se refere a uma perseguição sofrida pela igreja cristã de Éfeso. Não podemos esquecer que as perseguições eram muito comuns nesta época a todos os seguidores do Nazareno.

O mesmo não acontece hoje? Todos nós que nos dispomos a realizar uma tarefa em nome do Cristo somos altamente perseguidos. Ora são familiares, outras vezes colegas de trabalho, antigas amizades, ou mesmo, Espíritos desejosos de dificultar o trabalho de expansão do Evangelho.

Assim, apliquemos a lição de Éfeso à nossa vida, sejamos também pacientes e perseverantes no Bem mesmo nos sofrimentos e nas perseguições que nos acometem; no fundo, se formos fiéis ao Cristo, estas situações nos fortalecem cada vez mais e ampliam em nós o nível de espiritualidade.

e trabalhaste pelo meu nome e não te cansaste. É preciso que entendamos que o Apocalipse é uma mensagem de Jesus para todos nós, digo mais ainda, para cada um de nós individualmente. Ele fala no texto para os anjos das igrejas, mas é preciso compreender que é à nossa intimidade que Ele se dirige. É como se Ele fizesse uma carta para cada um de nós com o conteúdo destas sete cartas às igrejas da Ásia.

Assim, podemos nos perguntar, o que é trabalhar em nome do Cristo? É em nome Dele que temos operado? São respostas que temos de dar para sabermos nos situar no contexto.

Jesus trabalha e sempre trabalhou em Nome de Deus, Ele sempre fez questão de mostrar que a obra era do Pai. Portanto, se queremos trabalhar em nome do Cristo, é em nome de Deus que temos que agir.

Deus é Pai de todos; de espíritas, de católicos, de protestantes, de mulçumanos, e até de ateus. Assim, trabalhar para ele é servir a todos indistintamente de credo, de cor, de raça, ou de quaisquer tipos de interesses, pois trabalhando em favor de nossos semelhantes, estamos trabalhando por nossos irmãos, que são os filhos de Deus.

Outro fator importante é que nós somos apenas um dos filhos, portanto, nada de nos privilegiar; Deus não nos quer bem mais do que quer aos outros seus filhos, então, por que prejudicar alguém para nos fazer qualquer tipo de bem? Isso não é agir em nome de Deus, não é trabalhar sob a tutela do Cristo, portanto, é por isso que nos angustiamos, sentimos vazios existenciais, e mesmo tudo conquistando conforme nossos desejos, sempre achamos que falta algo. O que falta? É o trabalho desinteressado em favor dos filhos de Deus, falta-nos como sempre alertou nosso querido Chico Xavier, a alegria do outro.

Deste modo, trabalhar em nome do Verdadeiro Autor do Apocalipse, é servir ao outro sem aguardar retribuição, este é o único trabalho que não cansa, que até descansa. Infelizmente isto nós só vamos compreender e comprovar no dia em que assim fizermos, ou seja, no dia em que conseguirmos viver Jesus, fazer como Ele fez.

4 Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor.

Até aqui Jesus falou das qualidades da igreja de Éfeso, e a pergunta a ser feita é esta: “nós temos participado destas qualidades”?

Se Jesus escrevesse para nós uma carta pessoal, o que Ele iria destacar em nosso modo de ser? Este é outro questionamento importante de fazermos.

Neste versículo e no próximo o Senhor falará dos erros desta igreja a que se dirige, é provável que seja nestas advertências que melhor nos situaremos

Tenho, porém, contra ti; é uma oposição ao que vinha sendo dito, e se Ele tem alguma coisa contra nós, contra o nosso modo de proceder, é sinal que nós não estamos caminhando em Sua direção, e no Mundo Espiritual, não existe neutralidade, se não estamos a favor do Cristo, estamos contra Ele. Pensemos sobre isto.

Dizia nosso grande amigo e professor de Evangelho, Sobral, que se nós não damos a frente para Jesus estamos dando-a para Seu adversário, aquele que é chamado pelas igrejas, de Satanás. Nós damos as costas para o Cristo, sempre que agimos por interesse pessoal, pois neste caso estamos contrariando o que Ele ensinou e privilegiando a lei de Seu adversário expressa no diálogo deste com o próprio Cristo: tudo isto te darei…7

Assim, estejamos atentos a quem estamos servindo, a quem estamos agradando.

que deixaste o teu primeiro amor. Esta talvez seja a frase mais importante de toda esta carta dirigida à comunidade de Éfeso. Nela é que devemos espelhar todo o nosso processo reeducativo. Lembremos, este comportamento era o que desagradava ao Senhor, ele é que desajustava o público alvo destas orientações em relação a Deus.

Amor, em grego temos agape, que quer dizer amor fraterno, de irmão, afeição; o mais puro amor. Representa a síntese de todas as qualidades da alma.

Em português muitas vezes se tem traduzido esta palavra por “caridade”. Amor e caridade se confundem quando o foco é o plano operacional do amor. Kardec perguntou aos Espíritos qual era o verdadeiro sentido da palavra caridade como a entendia Jesus. Ao fazer esta pergunta, Kardec deve ter pensado em agape. Os Espíritos responderam:

Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.8

Deste modo, ao dizer do primeiro amor abandonado, o Filho do homem se refere à prática da fraternidade, à relação de irmãos que não mais existia, ao afeto que não era mais um sentimento manifestado entre eles. Provavelmente não existia mais indulgência para com as imperfeições uns dos outros, e nem perdão das ofensas. Será que isto diz alguma coisa para nós? Como tem sido o nosso comportamento em família? E o nosso “movimento espírita”? Temos percebido estas virtudes nele?

Lembremos Jesus:

Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.9

Portanto, queridos irmãos, este primeiro amor que tem faltado, é aquele sentimento de bondade, a manifestação de afeto que deve existir em todo relacionamento humano, pois todo homem é tutelado do Cristo.

Vejamos então, que o que o “Portador das estrelas” tinha contra eles, não era o fato de terem praticado ou não este ou aquele rito; nem porque criam ou não na reencarnação ou na ressurreição; muito menos porque usavam esta ou aquela roupa, ou se eram ou não batizados. O desagrado era o de não praticarem o primeiro amor que é a lição básica do Evangelho, o que eles já sabiam ser importante, o que a consciência já acusava quando não viviam.

5 Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres.

Lembra-te, pois, de onde caíste; este trecho sugere uma queda. Em termos espirituais, quando caímos?

É Emmanuel quem responde:

confiando em si mesmo, mais do que em Deus, o homem transforma a sua fragilidade em foco de ações contrárias a essa mesma lei [lei do determinismo divino do bem], efetuando, desse modo, uma intervenção indébita na harmonia divina.

Eis o mal.10

E nós complementaríamos: “…e eis a queda”

Por que o que são as nossas quedas, se não ações contrárias à Lei de Deus numa atitude de desobediência, uma intervenção indébita na harmonia divina? Aliás, não foi a desobediência o “pecado original”?

Diz a Lei, se caímos temos de reerguer-nos.

E esta é a continuidade da resposta de Emmanuel:

Urge recompor os elos sagrados dessa harmonia sublime.

Eis o resgate.

Portanto, para que assim possamos realizar é preciso fazer uma avaliação:

Lembra-te, pois, de onde caíste…

Não do lugar, mas o que nos levou à queda.

E continuamos com Emmanuel:

Colocada por Deus, no caminho da vida, como discípulo que termina os estudos básicos, a alma nem sempre sabe agir em correlação com os bens recebidos do Criador, caindo pelo orgulho e pela vaidade, pela ambição ou pelo egoísmo…11

Depreendemos daí que, caímos quando usamos do orgulho, da vaidade, da ambição, e do egoísmo.

Não são todos estes, sentimentos ligados ao interesse pessoal? Voltamos ao mesmo ponto, abandonamos o “primeiro amor”…

A título de uma breve conclusão podemos afirmar, todas as vezes que desequilibramos os princípios fundamentais de nossa existência autocentrismo e altruísmo, nós entramos num processo de queda moral, urgindo, deste modo, uma necessidade de recomposição. É o próximo passo colocado pelo versículo:

e arrepende-te; o “e” é uma conjunção importantíssima neste processo, pois define nossa necessidade de avaliar, reconhecer o erro, mas também de arrepender-se e consertá-lo.

Ou seja, são três as fases da recomposição e todas têm de ser cumpridas, não é uma ou a outra, mas as três.

Reconhecimento do erro = lembra-te, pois, de onde caíste.

Arrependimento = e arrepende-te.

Reparação = e pratica as primeiras obras.

A palavra grega escrita no Apocalipse a que se refere esta segunda fase, a do arrependimento, é metanoeo, que expressa um arrependimento dinâmico. O sentido é de “mudar a mente”, “converter-se”; trata-se de uma ação imperativa e com finalidade moral.

No contexto da Revelação ela implica na terceira etapa do processo de recomposição que é a reparação.

e pratica as primeiras obras; trata-se da retomada de uma conduta anterior de simplicidade, de entusiasmo pelo trabalho do Cristo.

Como dissemos, no processo de recomposição significa a reparação, a reconstrução do que foi destruído no processo da queda, é a ascensão propriamente dita.

Dissemos que Éfeso era um centro religioso; era uma cidade em que se praticava, no entanto, uma religião voltada para o materialismo representado pelo templo de Ártemis.

A proposta cristã instaurada na cidade por João, Paulo, Maria, entre outros, era justamente a de um rompimento com o materialismo através de uma espiritualidade voltada para a vivência do Bem, onde a simplicidade era um dos maiores valores, já que o que era levado em conta era o Espírito imortal do qual Jesus foi o maior educador.

Este novo paradigma de religião foi muito bem exposto e praticado pelos apóstolos nos primeiros dias da comunidade, dias estes em que o médium de Patmos teve importante participação, ele conhecia a matéria, pois lá viveu muitos anos.

Praticar as primeiras obras é voltar àquela conduta dos primeiros dias, conduta esta que provavelmente se perdeu, é o que depreendemos da reprimenda do Autor Espiritual.

Não terá estas “primeiras obras” uma íntima relação com o primeiro mandamento, amar a Deus sob todas as coisas?

E quando deixamos esta conduta de simplicidade não é porque estamos valorizando coisas e posições hierárquicas mais do que a Deus?

Façamos sincera reflexão a respeito e retomemos nossa conduta “menina” de fidelidade ao Pai, isto é o que está em foco no verso analisado.

quando não; quando não quer dizer, “caso contrário…”, “senão…”, ou seja, trata-se de uma alternativa à desobediência. Este é o mecanismo da Lei, se a infringimos ela tem recursos para nos fazer voltar a ela.

Já dissemos, e aqui é importante repetir. Muitos têm visto nesta Revelação um livro de tragédias para a humanidade, entretanto, esta não é a verdade, o Apocalipse como dor é apenas um recurso quando não ouvimos a Voz do Cristo em Seu Evangelho de Amor. Este passo do versículo representa bem esta proposta, a profecia em termos negativos só se cumprirá se não ouvirmos as lições do Monte.

brevemente a ti virei; esta expressão nos fala da volta de Jesus, e aqui percebemos Sua vinda não mais como advogado, mas como Juiz.

Havia nesta época, entre os cristãos, a ideia de que esta volta se daria em breve, o que gerava entre os seguidores do Nazareno uma certa ansiedade que foi passada de geração em geração, pois até hoje se aguarda esta volta do Messias.

Não compreenderam os estudiosos deste e de outros textos do Evangelho que tratam do assunto, que esta volta do Cristo se dá ao nível da consciência de cada um. Ele volta julgando-nos a todo momento em que aprendemos uma lição e temos que praticá-la, são os testes do dia a dia, e o juízo feito pela consciência de cada um que é Deus presente em nós conforme podemos depreender da resposta dos Espíritos à inquirição de Kardec:

Onde está escrita a lei de Deus?

Na consciência.”12

Vamos notar que em todas as sete cartas dirigidas às comunidades cristãs existem a promessa desta volta, ou seja, Ele voltará para cada uma de um modo, de acordo com o estado evolucional individual. É o mesmo que ocorre conosco também.

Não descartamos um juízo coletivo que possa acontecer em um final de ciclo planetário, pois se a cada lance da evolução temos seu julgamento proporcional ao ciclo encerrado, isto no que diz respeito à individualidade, como a Lei é Una, no micro e no macrocosmo os eventos são também semelhantes; daí, quando um planeta como o nosso chega ao fim de um de seus ciclos de evolução, há para a humanidade de um modo geral um juízo, que pode também ser compreendida como esta volta do Cristo.

Esta é uma das mensagens trazidas por esta Revelação. Encontramo-nos nos dias atuais no ponto culminante deste momento planetário, trata-se da transição por que passamos de mundo de provas e expiações para mundo de regeneração. Todavia, o que é preciso que se entenda é que do mesmo modo que nem tudo ocorreu no tempo apostólico, nem em 1999, nem tudo também acontecerá em 2012, ou outro ano qualquer. Estes dias de transição são um período que se estende por muitos anos.

e tirarei do seu lugar o teu castiçal; lembremos aqui o que foi dito sobre o castiçal:

e os sete castiçais, que viste, são as sete igrejas.13

E sobre as igrejas dissemos, são no plano físico a materialização do pensamento crístico de acordo com a faixa evolutiva de cada um.

Para Paulo a comunidade é o “corpo de Cristo”.

Podemos entendê-la, também, e principalmente se avaliarmos sua representação na individualidade, como a oportunidade de sermos porta vozes do Senhor, o que se dá através de nossa autoridade moral.

Deste modo, sermos destituídos desta condição, “tirar o nosso lugar de castiçal”, quer dizer, perdermos a condição de porta vozes de Deus e de Seu Cristo, a autoridade moral; e em última instância, perdermos a conexão com Deus. E quando isto acontece?

Quando não seguimos as orientações Daquele que tem na Sua destra as sete estrelas, quando não nos convertemos a Ele através de um conduta que expresse o “primeiro amor”.

Em outras palavras, conforme diz o evangelista, se não te arrependeres.

6 Tens, porém, isto: que aborreces as obras dos nicolaítas, as quais eu também aborreço.

Temos neste passo, após uma reprimenda à comunidade de Éfeso nos versículos anteriores, o que poderíamos chamar de um refresco por parte do Educador Exemplar.

Importante destacarmos a sequencia didática de Seu chamamento de atenção.

Ele inicia com um elogio, versículos dois e três, abrindo assim a mente de seus educandos tornando-os receptivos à lição. Depois de conquistar a confiança sensibiliza-os para o ponto que necessitava ser mudado na conduta deles, versículos quatro e cinco, e que era o mais importante, vindo depois, ou seja, neste verso, elogiar novamente destacando o de positivo que eles tinham.

Importa termos esta percepção, pois não são poucas as vezes em que tendo sob nossa direção pessoas ou eventos a serem encaminhados para o Bem, perdemos valiosa oportunidade simplesmente por termos olhos de ver somente o negativo e valorizá-lo mais do que o ideal.

Na escola, o bom professor sabe que na maioria das vezes, a distância do pior aluno, aquele que lhe dá mais trabalho, até o melhor, é apenas uma questão de abordagem e de foco, de sensibilização daquele que precisa ser transformado. Quando há competência do mestre em trabalhar a fertilidade dos corações, a água se transforma em vinho com grande naturalidade.

Assim, no encerramento desta carta que tem ampla finalidade educacional, o Mestre dos mestres volta a salientar o que de melhor tinham aqueles a quem Ele se dirigia. Faz um paralelo deles com Ele próprio, como se dissesse, “vocês não estão longe do ideal, estão em uníssono comigo, mas não se descuidem, tenham cuidado com os nicolaítas…” que são os representantes do atraso moral, os que levam à queda explorando os pontos vulneráveis de suas vítimas, os que insistem em trabalhar em sentido contrário ao Deus libertador de consciências.

Outro ponto a ser destacado neste verso, é que Aquele que ama a Deus amando a Seus filhos, não abomina os que estão em erro, apesar do imenso mal que eles fazem; mas detesta e aborrece, as suas obras, o que é bem diferente.

É uma lição que sempre retorna, como numa espiral: “deteste o pecado, mas ame o pecador”.

7 Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida que está no paraíso de Deus.

Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas; é a mesma a estrutura literária de todas as sete cartas, todas terminam evocando esta expressão já utilizada nos Evangelhos caracterizando a linha didática da Revelação.

Esta era uma fórmula usada quando se tratava da transmissão de mensagens ocultas, a mesma é usada também no livro de Ezequiel.14

Temos insistido, o Evangelho é a Boa Notícia para o Espírito imortal, é com os sentidos deste que deve ser percebido. Se o Antigo Testamento fala de uma luta reeducativa para se alcançar uma felicidade no plano transitório em que nos movimentamos, a sobrevivência do homem biológico, o Novo nos informa sobre a necessidade de trabalharmos em favor de uma prosperidade espiritual; é o homem-Espírito que surge, o Filho do homem, daí a importância de termos ouvidos que ouçam além da oitava habitual.

O Espírito diz às igrejas é uma expressão que fala não só da Entidade que se manifesta através do médium, e que caracteriza o próprio Cristo, mas também do sentido espiritual do Apocalipse definindo a ampla conexão do Enviado Celestial com sua comunidade.

Nestes dias de transição por que passamos, momentos estes de grande significação dentro dos quadros de toda nossa história planetária, é imperioso mesmo, termos, sentidos agudos para percebermos o que vai além de nossa percepção sensória puramente humana. Estamos no ponto culminante de um ciclo de grandes transformações morais, onde as oportunidades são dadas a fim de nos posicionarmos e nos manifestarmos tais quais somos, porém, que tenhamos consciência, é de acordo com nossas escolhas que estaremos definindo o que nos aguarda, a árvore da vida, ou novamente a proibição de nos alimentarmos da árvore da ciência do bem e do mal. A prisão da matéria, ou a liberdade do Espírito.

A opção será de cada um…

Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida; vamos notar que o Apocalipse nos traz sempre uma luta do bem contra o mal, que de certa forma é toda a nossa jornada evolutiva. Teremos ainda muitas lutas a nos desafiarem, estas serão sempre instrumentos de elevação. Zaqueau para ver Jesus teve que vencer dificuldades, entre elas, subir num sicômoro, que é figueira brava, ou seja, luta com grandes dificuldades. É o bom combate citado por Paulo; Não existem vitórias sem lutas sugere-nos o texto, trata-se da luta reeducativa, de vencer as próprias imperfeições, vencer a si mesmo.

Assim, esta expressão ao que vencer nos fala daquele que vence o mal e suas consequências, o que é o objetivo de todos nós.

A árvore da vida representa a vida eterna, conforme encontramos nos primeiros movimentos do Gênesis15, aquele que come de seu fruto vive eternamente.

Podemos fazer uma analogia e ver nesta árvore o próprio Cristo, enquanto a árvore da ciência do bem e do mal seria as revelações anteriores que davam um sentido apenas humano e transitório à vida.

Aquele que adota o Cristo em sua vida pela vivência do amor sai do ciclo evolutivo pelos impactos e pelas dores, e passa a viver num padrão de maior segurança sem os conflitos da consciência desajustada, numa linha indutora do Bem pela integração no Plano de Deus.

que está no paraíso de Deus. O Apocalipse é o último livro da Bíblia, a mensagem dele é a da vitória final do Bem sobre o mal. É desta forma, a efetivação da recomposição do Espírito, representa em termos finalísticos o fim da era evolutiva por linhas quebradas, iniciará a partir daí a evolução sem rebeldia, sem a presença do mal.

No primeiro livro, Gênesis, através do símbolo da queda, temos a entrada do pecado no mundo, no último, o Apocalipse, o pecado é reabsorvido pela vida através da vivência plena do Evangelho, é a volta ao paraíso de Deus, o resgate do Espírito.

porque o amor cobre uma multidão de pecados.16

1 Apocalipse, 2: 1 a 7

2 XAVIER, F. C. / Emmanuel (Espírito). Paulo e Estevão, 41ª Ed. Rio de Janeiro: FEB, (2004). II parte, cap. 7,

3 I Coríntios, 3: 6

4 João, 4: 34

5 (Dicionário Bíblico Strong 2002)

6 I João, 4: 1

7 Cf. Mateus, 4: 9

8 (KARDEC, O Livro dos Espíritos. 50ª ed. 1980), Q. 886

9 João, 13: 35

10 [F. C. XAVIER / Emmanuel (Espírito) 1993], Q. 135

11 [F. C. XAVIER / Emmanuel (Espírito) 1993], Q. 248

12 (KARDEC, O Livro dos Espíritos. 50ª ed. 1980), Q. 621

13 Apocalipse, 1: 20

14 Cf. Ezequiel, 3: 27

15 Cf. Gênesis, 3: 22

16 I Pedro, 4: 8

 


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