O Administrador Infiel

 

E dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um administrador; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens.

E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isso que ouço de ti? Presta contas da tua administração, porque já não poderás ser mais meu administrador.

E o administrador diz a si mesmo: Que farei, pois quando o meu senhor me tiver tirado a administração? Cavar a terra? Não tenho força para isso; mendigar? Tenho vergonha.

Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for afastado de minha administração, me acolham em suas casas.

E, chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor?

E ele respondeu: Cem medidas de azeite. E disse-lhe: Toma a tua conta e, assentando-te já, escreve cinqüenta.

Disse depois a outro: E tu quanto deves? E ele respondeu: Cem alqueires de trigo. E disse-lhe: Toma a tua conta e escreve oitenta.

O senhor elogiou o administrador infiel por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz.1

E dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um administrador; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens.

E dizia também aos seus discípulos… - Jesus disse para os seus discípulos e para todos que o quisessem ouvir em todas as épocas da humanidade. Sem ter restrições a pessoas disse de modo que todos, independente de seu estado evolutivo, pudessem compreendê-lo, cada qual como pudesse.

Aqui segue ele com mais uma de suas brilhantes parábolas a ensinar-nos para a eternidade.

Parabolè em grego, em português “parábola”; em hebraico, língua falada por Jesus, mashal, significa exemplo ou comparação.

É um excelente método para ensinar, pois torna mais próximo do educando a lição, mesmo quando esta diz respeito a ensinamentos de grande profundidade ainda inalcançáveis por ele por outros meios.

Esta técnica já era usada antes de Jesus , porém foi o Mestre Galileu quem imortalizou para nós ocidentais este recurso didático de grande valia.

Havia um certo homem rico… - Na parábola a narrativa é alegórica, deste modo os personagens não são tirados da vida real, tendo significados do acordo com o objetivo moral a ser alcançado.

Este homem rico aqui representa o Criador de todas as coisas, o único verdadeiramente rico, pois Nele nada é transitório.

O que significa ser rico para qualquer um de nós? A resposta a esta questão mostra o estado evolutivo em que nos encontramos; se para uns é indispensável a abastança material, para outros o simples fato de estar reunidos com os seus familiares é motivo de reconhecimento de sua riqueza.

Porém, como dissemos anteriormente, em nós tudo é transitório, enquanto tiver utilidade diante da economia da vida para que aprendamos qualquer lição, nos é permitido o vínculo a coisas e pessoas, todavia quando se esgota a função didática da posse essa é retirada, sendo permitida a outro que ainda necessita dela. Essa é a dinâmica da vida.

o qual tinha um administrador… - É comum às pessoas que têm posses terem administradores a quem confiam seus bens no sentido de administrá-los com maior produtividade.

Deus também tem os seus a quem confia momentaneamente posses para que estas possam dar os frutos esperados por Ele no sentido de maior comunhão entre aqueles que o têm como Pai.

Quem são os administradores do Eterno? Sem medo de incorrermos em erro podemos afirmar: todos nós.

Todos temos, cada um de acordo com a sua necessidade, valores do Pai a quem teremos que dar conta no momento oportuno. É necessário que se entenda que a moeda do Criador não é a mesma que circula em nosso mundo material; tudo o que foi criado e é a nos permitido possuir por um momento que seja, tem o seu valor.

Se a uns é dado a grandeza monetária, a outros é dado o recurso da informação, a outros a saúde e assim por diante. Tudo isto é instrumento de valor capaz de gerar benefícios e deste modo merecem que sejam administrados com eficiência.

Se em uma empresa capitalista a avaliação dos resultados é feita de forma constante e aqueles que não têm sido eficientes são substituídos por outros visando um melhor aproveitamento, o mesmo se dá na economia divina, somos constantemente avaliados e lotados onde melhor tivermos condições de dar frutos mais adequados.

Emmanuel, o fiel discípulo do Evangelho, afirma que a existência do homem é um grande conjunto de negócios espirituais e que a vida, em si, não passa de ato religioso permanente, com vistas aos deveres divinos que nos prendem a Deus.2

Portanto, avaliemos como temos nos comportado diante do que é apenas empréstimo do Senhor da vida, é muito importante para a nossa contabilidade particular que tudo seja de melhor proveito para todos e que nada se perca.3

e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens. – Na parábola não é dito nem o que ele estava fazendo para dilapidar os bens de seu senhor, e nem quem o tinha acusado.

É que no cômputo geral isto não importa. Na relação de Deus com suas criaturas não há espaço para intrigas, estas quando acontecem são por conta de quem as cultiva.

Qualquer fato que fira a justiça da Lei é dissipação dos bens delegados pelas Potências Criadoras, e quando há insistência na rebeldia é disparada automaticamente a Misericórdia do Senhor que dá a cada um segundo as suas próprias obras.

Deste modo é preciso que fique claro que não há ninguém no universo que fique a julgar ou avaliar as criaturas, quando dissemos que somos todos avaliados constantemente, não quisemos dizer que há pessoas ou espíritos a quem o Pai deu tal poder. Na Lei há um mecanismo automático e espontâneo de avaliação e recolocação das oportunidades, é a este recurso que denominamos avaliação. Tudo é perfeitamente previsto pelo Onipotente, inclusive a possibilidade de erro das criaturas, por isso já há na Lei Perfeita o mecanismo de correção que é disparado sempre que a infligimos.

Voltemos a Emmanuel na página já citada:

Cada criatura foi chamada pela Providência a determinado setor de trabalhos espirituais na Terra.

O comerciante está em negócios de suprimento e fraternidade…

(…) O servidor foi trazido a negócios de obediência e edificação.

As mães e pais terrestres foram convocados a negócios de renúncia, exemplificação e devotamento…

(…) Em razão desta verdade, meu amigo, vê o que fazes e não te esqueças de subordinar teus desejos a Deus, nos negócios que por algum tempo te forem confiados no mundo.

E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isso que ouço de ti? Presta contas da tua administração, porque já não poderás ser mais meu administrador.

E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isso que ouço de ti? – Há na Lei dois componentes básicos, são eles: justiça e misericórdia. Nada acontece sem que seja levado em conta estes dois aspectos.

Primeiro o Pai chama-o, como chama a cada um de nós. Depois diz: que é isso que ouço de ti? É justo o que estou sendo levado a ver?

Aqui não é dito, mas muitos são os avisos que nos são dados antes do veredicto final. Quantas vezes não nos acontecem algo que a intuição mostra-nos tratar de aviso da vida nos sugerindo uma correção de rota? Se não temos olhos de ver ou ouvidos de ouvir o que é espiritual, o andamento natural das coisas materializa a dificuldade e aí é que lembramos que tudo tem uma ordem a cumprir. Só quando a dor se faz clara, isto é, materializada, é que lembramos que erramos. As oportunidades são dadas, aproveitemo-las antes da tempestade. O próprio Mestre exemplificou:

Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar.4

Presta contas da tua administração… - A oportunidade é dada, presta contas da tua administração. Nada na vida é ao acaso, tudo tem a sua razão de ser. Por mais que às vezes pareça, não existe injustiça na dinâmica universal. Se algo nos acontece que a princípio parece sem propósito, não é; avaliemos corretamente, se mesmo assim não conseguimos entender, não esqueçamos que a vida teve outros momentos, a reencarnação é uma lei universal. Pode ser que hoje não nos fazemos merecedores, porém, e ontem, será que temos capacidade de avaliar o que já pudemos ter feito em existências anteriores?

Note-se que aqui todos os pronomes referidos ao administrador estão no singular sugerindo uma avaliação individual. Ninguém pode realizar evolução pelo outro, diante da Lei não existe transferência de responsabilidade, nem a justificativa de que o outro fez isto ou aquilo conosco e por isso agimos deste ou daquele modo. A conta a ser prestada é assim feita por cada um.

Portanto, trabalhemos por adquirir um amadurecimento capaz de prever a colheita no momento da semeadura, poucos têm esta possibilidade, porém é certo que, do que plantarmos isso mesmo colheremos.

Presta contas da tua administração, grita a voz silenciosamente em nossa intimidade.

Onde está escrita a lei de Deus?

Na consciência.”5

porque já não poderás ser mais meu administrador. – Esse foi o desenvolvimento natural de um acontecimento que poderia ter sido evitado.

É uma bancarrota ocasionada por despesas e receitas desajustadas…

Uma enfermidade grave que iniciou em uma emoção desequilibrada…

A perda de um amigo gerada por uma indiferença…

O hoje não é um tempo solto no espaço, mas consequência de um ontem que mesmo não lembrado não é esquecido.

Estejamos atentos, por aborrecimentos todos passamos, a contrariedade é um mecanismo da evolução a nos situar o espírito no que é realmente necessário, todavia lembremos novamente do inesquecível Emmanuel:

Experimentarás muitas dores, mas, se não permaneceres vigilante no aproveitamento da luta, teus dissabores correrão inúteis.6

E o administrador diz a si mesmo: Que farei, pois quando o meu senhor me tiver tirado a administração? Cavar a terra? Não tenho força para isso; mendigar? Tenho vergonha.

E o administrador diz a si mesmo… - Este é um momento importantíssimo para o Espírito, o instante de reflexão, em que, pensando de si para consigo ele avalia sua conduta e traça novos rumos para a caminhada. É um momento de amadurecimento, e que se aproveitado traz grandes ganhos espirituais para a criatura.

Nesta hora faz-se necessário despirmo-nos do que é transitório e ouvir no imo de nossa alma o que a Vida espera de nós.

Que farei, pois quando o meu senhor me tiver tirado a administração? – Note-se que aqui apesar do senhor ter dado a oportunidade ao seu administrador de justificar a sua conduta ele nem se preocupa com isso, dando a entender que tem mesmo culpa daquilo que é dito sobre ele.

Houve por parte dele um ganho de tempo; quanto não perdemos insistindo em justificar posições por nós tomadas e que são injustificáveis? Basta sermos pego em qualquer erro, para desenvolvermos uma série de justificativas que só encobrem a verdadeira face da questão nos distanciando ainda mais da verdade que efetivamente liberta.

Deste modo, após reflexão, e consciente da autoridade daquele que havia oportunizado para ele excelentes momentos, e sabedor de sua culpa, vai ao cerne da questão:

Que farei, pois quando meu senhor me tiver tirado a administração?

Essa é uma reflexão importante e necessária para todos nós: que faremos quando esta oportunidade reencarnatória terminar?

Este é um fato no mínimo curioso, todos nós sabemos que o único acontecimento determinado em nossa vida é que vamos um dia desencarnar. No entanto, com raríssimas exceções, nenhum de nós admite pensar em tal acontecimento.

Voltemos à pergunta feita pelo administrador:

Que farei, pois quando meu senhor me tiver tirado a administração?

Nos coloquemos no lugar dele. Será que estamos preparados para hoje recebermos o convite do Senhor para deixarmos o corpo físico e ingressarmos em uma nova realidade em outra dimensão?

O que faríamos? É bom pensar a respeito, essa é uma realidade que se aproxima e não sabemos quando se efetivará. Esse é um momento, que conforme palavras do próprio Jesus, virá como um ladrão, ou seja, de surpresa.

Cavar a terra? Não tenho força para isso… - Um outro posicionamento marcado pelo bom senso, é darmos o passo do tamanho de nossas pernas. Se assim não for é comum que surja uma situação de queda. E como já dissemos, faz parte de um plano bem edificado avaliar a colheita no momento da semeadura.

Assim, ao refletir e buscarmos um novo paradigma para a nossa vida, pensemos em primeiro lugar se temos condições de assumir tal comportamento; realizar uma mudança é fácil o difícil é mantermo-nos nela.

Quantos não são os pais, educadores, e até mesmo oradores espíritas que não perdem a autoridade justamente porque traçam um plano, ou criam um modelo de conduta para suas vidas e depois mantêm-se só na periferia ou no campo teórico da questão? Coerência e lealdade é o mínimo que se exige daquele que tem uma proposta sincera de autoeducação. E o espírita como um representante do cristianismo primitivo tem de adotar essas premissas em sua vida caso não queira se tornar uma vítima secular de suas próprias inconsistências.

Cavar a terra exige força, se não temos energia para tal empreendimento, sem o desdenhar, não assumamos para nós esta obrigação.

mendigar? Tenho vergonha. – Vergonha é um sentimento que causa sofrimento devido uma inferioridade de quem sente. É habitualmente causado pelo medo do ridículo e do julgamento dos outros. Depreendemos daí que o que nos faz sentir vergonha é uma preocupação excessiva com o que os outros vão pensar. Ou seja, nós não queremos ser o que somos, e sim o que os outros pensam que somos.

Satisfazer as expectativas então, passa a ser não um simples desejo, mas uma obsessão; e para que tudo se cumpra de acordo com o que almejamos passamos a ter mil caras, mil formas de se comportar, não sendo quase sempre natural, tendo em tudo que fazemos um ar de falsidade.

É muito comum pessoas terem vergonha de um ato de altruísmo praticado, de dizer que amam, de fazer o bem; enquanto não têm este sentimento ao fazer um negócio escuso e nele levar grande vantagem, isto até contam para os amigos; não se envergonham de prejudicar o outro se isso for dissimulado; também não somos tímidos diante de muitas outras atitudes contrárias ao bem comum. Do que temos nos envergonhado e por quê? É uma avaliação que devemos fazer visando elevar nosso autoconhecimento.

Se a primeira preocupação do administrador da parábola procede, esta, isto é, ter vergonha, nem sempre é bem vista em se tratando de um processo autoeducativo. Assim, deixemos de lado nossas preocupações simplesmente exteriores e busquemos a essência das coisas, sabendo que diante da vida todos temos nossas culpas e erros a serem ajustados; porém, só com o efetivo trabalho de auto iluminação mudaremos nosso modo de ser e o nível dos sentimentos que exteriorizamos.

Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for afastado de minha administração, me acolham em suas casas.

Eu sei o que hei de fazer… - Esta é realmente uma importante conquista, a de saber o que fazer. Conquista essa que só acontece após um período de meditação e amadurecimento. Quantas vezes não dificultamos nossa vida e criamos complicações outras simplesmente por não sabermos que posição tomar? Já de há muito nos afirma o texto das escrituras:

Eu sei as tuas obras, que nem és frio nem quente. Tomara que foras frio ou quente!

Assim, porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.7

Todavia, em sabendo o que fazer faz-se necessário realmente agir com o apoio da consciência caso não desejemos ser tomados à conta de modernos fariseus e também sermos repreendidos pela vida por nossa incoerência.

para que, quando for afastado de minha administração, me acolham em suas casas. – O espírito foi criado de tal forma que só é feliz se amar. Deste modo depreendemos que amar é uma das necessidades básicas da criatura. Amar, e como consequência, ser amado.

Entretanto, em nosso plano de vida a necessidade básica do homem comum é a segurança. De nada adianta ter todos os recursos sejam materiais ou até mesmo afetivos se não houver a mínima segurança capaz de deixar o elemento vivenciar com tranquilidade estas oportunidades. Até mesmo no amor se não houver segurança, podem os seres envolvidos se desgastarem no medo com tal intensidade que anomalias psíquicas graves podem advir no desenvolvimento do processo.

Nesta parábola que ora estudamos o administrador preocupa-se com a sua segurança; o que faria ele quando fosse afastado de sua administração? Quem o acolheria em sua casa?

Na vida comum sempre temos a mesma dúvida, é o medo de perder o emprego, de ser mal sucedido nos negócios, de perder a saúde, entre outros. É sempre a perda tendo significado importante em nossa história evolutiva.

Porém não fomos criados para perder, isso só acontece como necessidade devido ao procedimento incorreto da criatura, mesmo assim, é a perda momentânea promovendo um ganho definitivo no futuro; é o afastar-se da Lei de Deus imprimindo no próprio ser a necessidade de correção.

O acolhimento na casa expresso no texto representa bem esta necessidade de segurança, e mesmo já sabendo o que fazer, notamos no administrador uma certa ansiedade.

E, chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor?

E, chamando a si cada um dos devedores do seu senhor – Muito erramos em nossas vidas por fazermos uma avaliação indevida dos acontecimentos. Em quantas situações não nos achamos como credores desta ou daquela pessoa e por isso não exigimos dela além da conta, e até mesmo o que ela não pode dar?

Na parábola o senhor representa exatamente o Senhor do Universo, o Criador de todas as coisas, e assim aprendemos que, se somos devedores, todos somos é do Senhor; portanto, se houver algum credor é só Ele que nos atribuiu a vida e nos abastece de possibilidades para que possamos conquistá-la de forma consciente retornando assim ao estado inicial de harmonia com Ele.

Deste modo, numa escala mais ampla de entendimento não somos devedores uns dos outros, o acontece e que muitas vezes é mal compreendido é que temos o compromisso com a vida de sempre promover o bem e a evolução, assim nos comprometemos a auxiliar uns aos outros; por nem sempre realizar como devemos insculpimos em nossa consciência o sentimento de dívida a ser resgatada, e o que pior, muitas vezes por processo de transferência, fruto de nossa imaturidade, incorremos no sério erro de achar que o outro é que é nosso devedor e assim iniciamos um processo de cobrança que habitualmente deságua em sérios processos obsessivos que só são equacionados com o auxílio do tempo nos cartórios das existências múltiplas.

Se a chamada a si por parte deste administrador que ora estudamos, dá a entender que ele neste momento avaliou corretamente esta situação; em se tratando da posição dos que são chamados, e que somos nós mesmos em diversas situações de nossa vida, faz-se necessário que cada um neste momento precioso promovido pelas Sábias Leis da Criação, faça uma introspecção situando-se diante dos acontecimentos com vistas a efetivar as transformações que são necessárias dentro do andamento natural da evolução.

Não tenhamos receio das perdas transitórias que na realização deste processo compreendemos como necessárias ao nosso progresso, serão elas compensadas com efetivo ganho em matéria de espiritualidade e satisfação íntima. A verdadeira felicidade esta na avaliação correta das ocorrências, e como consequência disto, na realização em harmonia com a nossa consciência que, por ser Deus imanente em nós, é promotora exclusiva do bem de todos.

disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? – Avaliação correta; mesmo analisando do ponto de vista material a dívida era ao senhor. O administrador reconhecia essa realidade.

Outro ponto que chama-nos a atenção de forma positiva, é que ele não apresentou a conta conforme o seu entendimento, o que é comum nos credores em nosso plano de movimentação. Por aqui, quando apresentamos uma dívida em forma de cobrança a alguém, já definimos o valor, o que é efeito habitualmente acrescido de juros, multas e correções outras, não dando ao devedor direito outro a não ser o de dizer que dia vai pagar a conta.

Assim não fez o personagem da história, ele perguntou ao devedor qual era a sua dívida, quanto deves ao meu senhor? Dando a ele, não a oportunidade de defesa como é habitual, mas a de participar efetivamente no processo de acerto. Esta é uma sábia posição que deve ser por nós apreendida como ensinamento profundo da parábola.

É como se aquele que se sente ofendido por determinada pessoa ao invés de acusá-lo cobrando uma reparação, desse ao ofensor a possibilidade dele mesmo reconhecer seu erro e assim efetivar o processo reparador, pois é da lei que quem erre corrija, e esse é o desejo profundo de todos – mesmo daqueles que possuem desvio de caráter -, por em cada um brilhar a centelha divina. Deste modo, colocando na mão do responsável pela reparação a própria condução do processo, além de valorizarmos sua pessoa, oportunizamos o desenvolvimento natural da ocorrência o que é psicologicamente mais sábio e correto.

Jesus estimulava a promoção da criatura, por isso em seus ensinamentos encontramos sempre essa proposta mesmo que envolta em símbolos e alegorias.

E ele respondeu: Cem medidas de azeite. E disse-lhe: Toma a tua conta e, assentando-te já, escreve cinquenta.

E ele respondeu: Cem medidas de azeite. – Estar atento é uma das necessidades maiores da criatura em nosso estagio evolutivo atual. Dissemos desta forma, pois na maioria das vezes estamos distraídos quanto às necessidades básicas do Ser integral.

O homem tem uma dupla natureza, isto é, material e espiritual. Assim, se temos a necessidade de alimentar o físico, temos também o dever de manter o espiritual em equilíbrio. Por maior que seja nossa existência física, o tempo em que se desenvolve esta é muito pequeno perante a eternidade espiritual; desta forma, podemos com toda segurança afirmar que a supervalorização dos fatores materiais é a maior ilusão em que podemos nos envolver, e sempre que nesse estado nos achamos, em realidade estamos em distração quanto às necessidades essenciais que a vida nos propõe.

Deste modo, é preciso estar atento, pois a vida nos questiona sempre através das oportunidades que nos são dadas e nesse instante temos que em perfeito juízo respondermos adequadamente.

A esta questão o primeiro devedor respondeu: cem medidas de azeite. Esta era a sua dívida completa, ele tinha perfeita consciência de seu estado; sabendo o que lhe pertencia, sabia também o que era do outro, respeitando assim, o que era de cada um.

A estes o próprio Jesus afirmou:

Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.8

Quantas vezes não temos nem mesmo a dimensão correta do que nos acontece? Será que já percebemos que na maioria das vezes estamos como aquele personagem citado pelo Divino amigo quando diz:

Como você pode reparar o cisco no olho de seu irmão sem se dar conta de uma trave no seu próprio olho? Como você pode dizer a seu irmão: “me deixe tirar esse cisco do seu olho”, se você não enxerga a trave no seu próprio olho? Hipócrita! Primeiro tire a trave de seu próprio olho e depois você poderá enxergar bem para retirar o cisco que no olho de seu irmão.9

E disse-lhe: Toma a tua conta e, assentando-te já, escreve cinquenta. – Apesar de ser comum em nosso mundo tanto a falta de transparência quanto a corrupção quando da realização dos negócios habituais em que nos envolvemos, ficamos surpresos, se não com a atitude do administrador desta parábola, mas por ter sido este elogiado pelo senhor quando agiu, segundo nossos conceitos, de forma incorreta.

É preciso analisarmos com calma o que foi elogiado pelo senhor, mas antes cabe uma consideração histórica que achamos oportuna.

A Bíblia de Jerusalém, em nota ao versículo 8 deste capítulo da narrativa de Lucas, informa-nos:

Segundo o costume tolerado na Palestina naquela época, o administrador tinha o direito de conceder empréstimos com os bens do seu senhor. E, como não era remunerado, ele se indenizava aumentando, no recibo, a importância dos empréstimos. Assim, na hora do reembolso, ficava com a diferença como um acréscimo que era o seu juro.

Desta forma, quando o administrador perdoa as cinquenta medidas de azeite, não estava ele prejudicando o seu senhor, e sim abrindo mão do seu lucro, ou da sua comissão. Cinquenta, segundo esse costume, talvez fosse a dívida real para com o senhor, por isso o administrador, se agiu deste modo, não cometeu nenhuma desonestidade para com aquele que lhe dava a administração, a sua infidelidade ao senhor (cf. Vers. 8) ou a dissipação dos bens deste (cf. Vers. 1), provavelmente não consistia na redução dos recibos, e sim por uma má gestão anterior.

Analisemos sob outro aspecto buscando uma maior profundidade…

O azeite era um dos principais produtos da Palestina; tinha àquele tempo várias aplicações entre as quais destacamos a de alumiar quando colocado em lâmpadas10, servia para fins culinários11, sendo também aplicado no tratamento de feridas para alívio daquele que padecia dores oriundas destas.12 Quando mais puro era usado para o serviço do santuário que era continuamente iluminado.

Representa para nós no estudo deste texto o componente mais importante no processo de autoiluminação do Espírito, pois era àquele tempo o combustível básico utilizado para acender lâmpadas. É preciso, deste modo, compreendermos, que para atingirmos este estado final de nosso processo evolutivo, o de autoiluminação, faz-se necessário de nossa parte adquirirmos o azeite em seu sentido espiritual. E como fazê-lo?

Para possuirmos tal compreensão não devemos esquecer que no processo de gerar luz o azeite permite a queima de si próprio, representando assim o sacrifício que deve ser feito pelo Espírito neste processo autoiluminativo; ou seja, todo o encaminhamento da nossa evolução deve pautar pelo esquecimento de si próprio em favor tanto do próximo quanto do interesse coletivo. Não foi por outro motivo que Jesus, o incomparável Mestre, nos afirmou que reconheceria seus discípulos em todos os tempos pelo sentimento de amor que estes expressassem uns pelos outros. Desta forma o azeite simboliza para nós a misericórdia em que devemos nos movimentar e assim nos fazermos merecedores do mesmo sentimento por parte do Criador.

Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia…13

Na Parábola do Filho Pródigo14, basta que o filho arrependido inicie a caminhada de volta para o pai para que este vá buscá-lo antes de chegar em casa, ensinando-nos assim a misericórdia contida na Lei quando executamos a nossa parte na Criação.

Esse foi o motivo por que aquele devedor pôde ser perdoado em 50% da dívida referente ao azeite, pois quando adquirimos o azeite espiritual o Criador entra com a sua parte através de Sua Infinita Misericórdia.

Disse depois a outro: E tu quanto deves? E ele respondeu: Cem alqueires de trigo. E disse-lhe: Toma a tua conta e escreve oitenta.

Disse depois a outro: E tu quanto deves? – Aqui o processo é o mesmo de versículos anteriores, assim, não vamos nos ocupar muito com este trecho pois nos perderíamos em repetições desnecessárias. Cabe apenas salientar que a pergunta feita depois a outro leva-nos a depreender que a situação de cada um é particular. Débitos e créditos são lançamentos precisos na contabilidade individual da Vida.

E tu quanto deves? Essa é uma reflexão necessária que cabe a cada um de nós realizar.

E ele respondeu: Cem alqueires de trigo. E disse-lhe: Toma a tua conta e escreve oitenta. - O azeite representou em nossa interpretação a misericórdia, devemos agora trabalhar o significado do trigo.

O trigo é matéria prima da fabricação do pão, que se muitas vezes pode nos levar a trabalhar aspectos importantes do alimento espiritual, na maioria das vezes o relacionamos com o alimento básico do corpo material.

Corpo físico leva-nos a pensar em reencarnação, pois este é o instrumento para que esta lei da evolução se efetive; e se reencarnação nos remonta às questões da justiça, pois sem dúvida nenhuma ela é um dos maiores instrumentos da Lei para que o direito divino se manifeste, fica fácil assim, na interpretação desta parábola relacionar o trigo com a justiça.

Deste modo, aquele que adquiriu o trigo, sendo portanto devedor por este motivo, representa aquele que no processo de ascensão espiritual acha-se preso ainda às linhas da justiça. Ou seja, cumpre o seu dever com fidelidade mas ainda é incapaz de caminhar a segunda milha que é o passo da espontaneidade ou do amor manifesto.

Se por sua vez será digno de fartura, conforme nos aponta o Mestre em Seu primoroso Sermão, pois dá a todos o que é de cada um, ainda não é digno da misericórdia por assim não proceder com os outros. Desta forma mereceu um perdão de parte de sua dívida, perdão esse que o administrador calculou em 20%, devia cem e escreveu oitenta. É que nas dívidas ainda presas a aspectos de justiça mesmo que perdoadas ainda ficam na consciência os erros cometidos diante da Lei, e se aquele que perdoou se libertou do processo, o que foi perdoado ainda tem de seguir o caminho da reconstrução do que foi anteriormente destruído.

Assim fica claro porque o que devia o azeite pôde ter um perdão em percentual maior, pois era o que agia com misericórdia; enquanto o que agia nos planos da justiça foi aliviado em um pouco, mas por necessitar ainda de conquistar o azeite com o “suor do próprio rosto” tinha ainda uma conta maior, não por castigo, mas como instrumento de conquista do que ainda necessitava.

A Vida diz nos mínimos detalhes, o Incomparável Mestre nos ensina assim a ler em cada vírgula ou til de sua expressão o aspecto fundamental de que necessitamos. Trabalhemos nossa acuidade para o que é espiritual, pois só assim nos libertaremos definitivamente da transitoriedade dos sofrimentos.

O senhor elogiou o administrador infiel por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz.

A proposta de comércio com os valores nobres da virtude não deve ser enaltecida; o administrador concedeu o desconto objetivando simplesmente o seu próprio perdão. Ao exaltar a prudência deste administrador, o senhor fez ver aos homens mais capazes de compreender as lições evangélicas o que acontece em um plano biológico inferior, e que a mesma atitude deveria ser tomada no plano superior do entendimento espiritual. Os filhos deste mundo, representando os que agem ainda magnetizados pela atração da matéria sabem ser prudentes de acordo com a lei que rege este plano, assim pensam à frente e perdoam para serem acolhidos mais adiante; isto é, usam da "bondade" por interesse pessoal, querendo usufruir de tais princípios.

Os filhos da luz que deveriam ser os que vivenciam - e não simplesmente pregam - a Lei do Evangelho, deveriam no seu plano de ação fazer do mesmo modo, porém despidos do interesse pessoal que é o que atrasa o processo evolutivo.

Tudo conspira para a vida. Desde os primeiros movimentos da química inorgânica passando pelos fenômenos biológicos característicos da vida vegetal e animal, até o psiquismo mais profundo do homem atual, há a manifestação de um princípio diretor que transforma atração em afeto, libertando o princípio espiritual das formas inferiores da existência de acordo com a proposta ascensional do pensamento de Deus.

Assim, torna-se claro que a consequência moral de todo movimento evolucional é que a virtude e o bem tornam-se finalidade ou fim de todas as nossas conquistas, e que, estes sentimentos - virtude e bem - transformam-se em poderosos medicamentos com vistas à nossa saúde integral.

Deste modo, trabalhemos pela efetiva qualidade de enriquecimento de nossa consciência com vistas a uma evolução coletiva a partir do que já possuímos hoje, tanto de valor moral como de oportunidade de no dia a dia realizarmos, pois a Lei contabiliza ganhos e perdas nos menores eventos por nós vivenciados, e sendo objetivo de toda nossa história evolutiva a conquista do espírito e o verdadeiro domínio sobre as questões materiais a oportunidade é agora e o como é fazer o bem e bem para todos. A transição de filhos deste mundo para a defilhos da luz é marcada pelo que fazemos de especial, ou ainda, pelo que damos à Vida em favor do bem comum de forma agradável e espontânea.

1 Lucas, 16: 1 a 8

2 Vinha de Luz cap. 2

3 Ver orientação de Jesus anotada em João, 6: 12

4 João, 9: 4

5 O Livro dos Espíritos, questão 621

6 Vinha de Luz cap. 3

7 Apocalipse, 3: 15 e 16

8 Mateus, 5: 6

9 Lucas, 6: 41 e 42

10 Ver Lucas, 25: 3 e 4

11 Conf. Ez, 16: 13

12 Ver Lucas, 10: 34

13 Mateus, 5: 7

14 Lucas, 15: 11 a 32

 


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