Gênesis, 1: 20-31

 

 

E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus. 21 E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. 22 E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra. 23 E foi a tarde e a manhã, o dia quinto. 24 E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi. 25 E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom. 26 E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. 27 E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. 28 E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. 29 E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento. 30 E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi. 31 E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

E disse Deus: Produzam as águas abundantemente répteis de alma vivente; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus. E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.

Depreendemos que nos vers. 11 e 12 surge a vida biológica a partir da expressão e a terra produziu erva, erva dando semente conforme a sua espécie tudo isso dentro do andamento natural da evolução. Porém é no versículo 20 que há surgimento das primeiras movimentações no reino animal após toda a preparação inicial para que fossem recebidas as espécies que já estavam programadas para vir no momento oportuno.

O processo acontecia de baixo para cima. Primeiro a oportunidade de se dotar o psiquismo em evolução da instrumentalidade para que ele possa se desenvolver.

O elemento deveria se projetar no habitat em que estava vinculado.

Tudo isso a partir da água: Água abundantemente produzindo vida…

A água é fonte de vida, mesmo no período atual viemos da água, nosso organismo em quase totalidade é água, o líquido amniótico é o nosso primeiro berço. Temos nela o símbolo da reencarnação, e através desta o aperfeiçoamento.

Sobre este princípio de vida em nosso orbe deixamos novamente a palavra com Emmanuel:

Daí a algum tempo, na crosta solidificada do planeta, como no fundo

dos oceanos, podia-se observar a existência de um elemento viscoso que cobria toda a Terra.

Estavam dados os primeiros passos no caminho da vida organizada.

Com essa massa gelatinosa, nascia no orbe o protoplasma e, com ele, lançara Jesus à superfície do mundo o germe sagrado dos primeiros homens.1

Tudo acontecia na Terra sob a orientações dos técnicos espirituais, os Espíritos que ajudavam Jesus na elaboração da formas, todos seguindo rigorosamente o projeto traçado pelo próprio Cristo.

E Emmanuel continua nos esclarecendo:

Sob a orientação misericordiosa e sábia do Cristo, laboravam na Terra numerosas assembléias de operários espirituais.

Como a engenharia moderna, que constrói um edifício prevendo os menores requisitos de sua finalidade, os artistas da espiritualidade edificavam o mundo das células iniciando, nos dias primevos, a construção das formas organizadas e inteligentes dos séculos porvindouros.

O ideal da beleza foi a sua preocupação dos primeiros momentos, no que se referia às edificações celulares das origens.

É por isso que, em todos os tempos, a beleza, junto à ordem, constituiu um dos traços indeléveis de toda a criação.

As formas de todos os reinos da natureza terrestre foram estudadas e previstas. Os fluidos da vida foram manipulados de modo a se adaptarem às condições físicas do planeta, encenando-se as construções celulares segundo as possibilidades do ambiente terrestre, tudo obedecendo a um plano preestabelecido pela misericordiosa sabedoria do Cristo, consideradas as leis do princípio e do desenvolvimento geral.

(…) Decorrido muito tempo, eis que as amebas primitivas se associam para a vida celular em comum, formando-se as colônias de infusórios, de polipeiros, em obediência aos planos da construção definitiva do porvir, emanados do mundo espiritual onde todo o progresso da Terra tem a sua gênese.

Os reinos vegetal e animal parecem confundidos nas profundidades oceânicas. Não existem formas definidas nem expressão individual nessas sociedades de infusórios; mas, desses conjuntos singulares, formam-se ensaios de vida que já apresentam caracteres e rudimentos dos organismos superiores.

Milhares de anos foram precisos aos operários de Jesus, nos serviços da elaboração paciente das formas.

A princípio, coordenam os elementos da nutrição e da conservação da existência. O coração e os brônquios são conquistados e, após eles, formam-se os pródromos celulares do sistema nervoso e dos órgãos da procriação, que se aperfeiçoam, definindo-se nos seres.

(…) Os primeiros crustáceos terrestres são um prolongamento dos crustáceos marinhos. Seguindo-lhes as pegadas, aparecem os batráquios, que trocam as águas pelas regiões lodosas e firmes.

Nessa fase evolutiva do planeta, todo o globo se veste de vegetação luxuriante, prodigiosa, de cujas florestas opulentas e desmesuradas as minas carboníferas dos tempos modernos são os petrificados vestígios.

Nessa altura, os artistas da criação inauguram novos períodos evolutivos, no plano das formas.

A Natureza torna-se uma grande oficina de ensaios monstruosos. Após os répteis, surgem os animais horrendos das eras primitivas.

Os trabalhadores do Cristo, como os alquimistas que estudam a combinação das substâncias, na retorta de acuradas observações, analisavam, igualmente, a combinação prodigiosa dos complexos celulares, cuja formação eles próprios haviam delineado, executando, com as suas experiências, uma justa aferição de valores, prevendo todas as possibilidades e necessidades do porvir.

Todas as arestas foram eliminadas. Aplainaram-se dificuldades e realizaram-se novas conquistas. A máquina celular foi aperfeiçoada, no limite do possível, em face das leis físicas do globo. Os tipos adequados à Terra foram consumados em todos os reinos da Natureza, eliminando-se os frutos teratológicos e estranhos, do laboratório de suas perseverantes experiências. A prova da intervenção das forças espirituais, nesse vasto campo de operações, é que, enquanto o escorpião, gêmeo dos crustáceos marinhos, conserva até hoje, de modo geral, a forma primitiva, os animais monstruosos das épocas remotas, que lhe foram posteriores, desapareceram para sempre da fauna terrestre, guardando os museus do mundo as interessantes reminiscências de suas formas atormentadas.2

Através destes esclarecimentos de Emmanuel e também das orientações de Kardec percebemos a grandeza da inspiração dos redatores bíblicos. Não foi por outro motivo que o Codificador anota:

dever-se-á daí concluir que a Bíblia é um erro? Não; a conclusão a tirar-se é que os homens se equivocaram ao interpretá-la.3

Não rejeitemos, pois, a Gênese bíblica; ao contrário, estudemo-la, como se estuda a história da infância dos povos.

Trata-se de uma época rica de alegorias, cujo sentido oculto se deve pesquisar; que se devem comentar e explicar com o auxílio das luzes da razão e da Ciência.4

Percebemos assim todo o encaminhamento da evolução. Espírito e matéria estão sempre vinculados na realização dos desígnios superiores, todos os modelos existentes na Terra foram selecionados por Jesus.

Répteis e aves são também expressões que presentes em nosso psiquismo nos ajudam a compreender nossas próprias conquistas.

A água nos sugere vinculação, através do réptil a liberdade [o réptil sai da água para a terra], a ave voa representando a desvinculação das faixas físicas… através do mamífero o ciclo continua no retorno à terra para a continuidade do processo evolutivo.

A sequência se dá assim:

Réptil  ave  mamífero.

Avançando pelos equinodermos e crustáceos, entre os quais ensaiou, durante milênios, o sistema vascular e o sistema nervoso, caminhou na direção dos ganóides e teleósteos, arquegossauros e labirintodontes para culminar nos grandes lacertinos e nas aves estranhas, descendentes dos pterossáurios, no jurássico superior, chegando à época supracretácea para entrar na classe dos primeiros mamíferos, procedentes dos répteis teromorfos.5

E Deus os abençoou, dizendo: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares; e as aves se multipliquem na terra. E foi a tarde e a manhã, o dia quinto.

E Deus os abençoou, dizendo…; a benção de Deus representa a homologação da consciência, nós a sentimos quando concluímos que estamos ajustados ao projeto do Criador no encaminhamento da evolução. É a paz da consciência tranquila, o descanso natural daquele que trabalhou com amor.

É importante compreendermos que os sete dias (ciclos) da criação se acham presentes em cada dia, como também em cada evento realizado. A bênção de Deus se dá na conclusão da sétima etapa, é quando encerramos um determinado processo e nos preparamos para outro.

E isto é também imprescindível que compreendamos, que após a conclusão de um evento a vida sempre nos apresentará outro iniciando uma nova laçada da espiral evolutiva, faz parte do dinamismo universal.

Frutificai e multiplicai-vos, e enchei as águas nos mares. Temos aqui a continuidade do processo definindo a necessidade de em todas as faixas da criação serem perpetuados os valores positivos. É ao mesmo tempo o dever de multiplicação do bem através do campo operacional - produza a terra… - e através deste a fixação das conquistas.

A criação divina é extremamente dinâmica, não há estagnação, se obedecermos aos Desígnios do Alto estaremos sempre atuando na faixa do Bem, quando há estacionamento, o que entendemos como perda de oportunidade de realizar o Bem, é por conta do Espírito; a Lei é frutificai e multiplicai-vos…

Água simboliza vida, mesmo após o que entendemos como morte, em todos os planos da evolução há vida, renascimento. A semente representa perpetuidade, mas para que o ciclo jamais se interrompa ela tem de morrer, se assim não for não há frutos e novamente semente.

Encher as águas nos mares significa assim, nossa capacidade de colaborar com todo este processo que jamais se extingue. Independente de nossa posição assim se dará; porém, se quisermos participar desta produção de benefícios ajustados ao Projeto Divino temos de estar sempre dispostos a atuar nas faixas construtivas da virtude seja pelo campo mental do qual nos dão notícias as aves pela capacidade de voar acima da terra, ou mesmo pelo campo operacional representado pela própria terra significando as vinculações necessárias à efetivação deste processo.

E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi. E fez Deus as feras da terra conforme a sua espécie, e o gado conforme a sua espécie, e todo o réptil da terra conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.

Temos que ter em conta que quando o texto diz produza a terra alma vivente estas “almas” que seriam os princípios inteligentes em evolução em condições de naquele momento se vincular à experiência física naquela condição seja no reino animal ou no reino vegetal [erva verde], já existiam no mundo espiritual.

Como? Podemos perguntar. A Doutrina Espírita nos mostra que a evolução não é feita em um orbe apenas, e muitos outros mundos já existiam antecedendo a Terra onde estes PI (princípios inteligentes) na sua caminhada natural chegaram à condição de estarem nesta faixa já necessitando da experiência que vieram ter aqui na Terra. Tudo isto é feito, conforme já comentamos, com a supervisão dos Técnicos Espirituais que são os Espíritos já em condições de ajudar a Deus e ao Seu Cristo no encaminhamento da evolução planetária.

Assim podemos entender esta produção de almas viventes como sendo o aparecimento do ser vivo no orbe na condição dos primeiros animais, o que se deu a partir do verso vinte, e aqui neste que ora analisamos como sendo a multiplicação das espécies.

Tudo isto se deu em milhões de anos. Nestes movimentos iniciais do Gênesis de um versículo para o outro passam-se milhares de séculos.

Assim temos:

Gado – animais domésticos

Répteis – podem ser os dinossauros, os grandes monstros, grandes répteis que também por sua configuração muitos deles se assemelhavam a aves.

Feras – algumas traduções falam em bestas-feras, seriam os animais selvagens.

Estava sendo preparado o terreno para o aparecimento natural do homem o que se daria a partir de mais alguns milhões de anos.

Os proscênios terrenos assistem a lutas titânicas entre os seres dotados de mirabolantes mecanismos de ataque e destruição. Época de transição, em que verdadeiros ensaios biológicos produzem monstruosidades como a se preparar para a delicadeza de uma nova vida, a dos mamíferos, que deveria se estabelecer na Terra. Foi preciso que as forças divinas convocassem um extraordinário feito para encerrar a escomunal “era dos grandes répteis”: um bólido de proporções consideráveis caiu no golfo do México, há 60 milhões de anos, nos alvores do “6º dia”, pondo fim a aventura dos monstruosos seres. Por pouco a vida não sucumbe em nosso orbe, que se viu envolvido por convulsões telúricas e densas trevas, mas o fato era indispensável para se permitir o desenvolvimento dos mamíferos que já existiam e com dificuldades sobreviviam no hostil ambiente daquelas revolutas eras. Segundo pesquisas recentes, estima-se que este tenha sido o fato que se responsabilizou pela extinção em massa dos dinossauros, pondo fim ao seu extenso domínio no planeta.6

E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.

Façamos o homem…; através do encaminhamento da evolução o homem já vem sendo preparado em todos os movimentos.

É chegado o momento culminante em que a consciência adormecida se acha em condições de ser desperta na faixa hominal.

O Princípio Inteligente que culmina no Espírito começa a se preparar para gerenciar seus próprios sentimentos.

A expressão façamos o homem tem desafiado os religiosos de todas as épocas, pois se Deus é único, por que aqui o uso do verbo no plural?

Os padres da igreja viram nesta expressão a insinuação da Trindade; os conhecimentos revelados pelos Espíritos e que formam a doutrina espírita nos apontam para outra interpretação.

Dizem os Espíritos que Deus não atua diretamente sobre a matéria, que para tal Ele tem agentes dedicados em todos os graus da escala dos mundos.7

Deduzimos daí que Deus Cria, mas quem faz são os Espíritos, são eles que operam em nome do Criador. Já comentamos sobre isto quando analisamos a palavra Elohims que é um dos nomes de Deus nas Escrituras e que é plural.8

Assim, aqui, o verbo façamos refere-se aos Espíritos colaboradores de Deus que o auxiliam em seu processo de Criação. André Luiz denominou estes Espíritos de Co-Criadores em plano maior.9

O próprio livro Gênesis nos autoriza esta interpretação quando em seu terceiro capítulo encontramos os seguintes registros:

Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal10 (Grifo meu)

à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; neste ponto com a ajuda da doutrina espírita podemos compreender melhor este verso.

O homem não podia ser criado à semelhança de Deus. Semelhante significa que é da mesma espécie, da mesma qualidade, natureza ou forma.11 O homem foi feito à semelhança dos Espíritos superiores, eram da mesma natureza e origem destes, que também eram Criação Divina.

Quanto a imagem, o homem pode ser considerado tanto uma imagem de Deus como dos Espíritos Co-Criadores.

Imagem significa um reflexo, uma reprodução invertida de um ser ou objeto12. Uma imagem está sempre em uma dimensão menor. Uma sombra de um objeto é a imagem do objeto, e não o objeto em si.

Há um texto de um místico mulçumano do século XIII que comentando a criação do homem diz assim:

Tudo é reflexo de Deus, e a réplica se assemelha à pessoa: se os cinco dedos se abrem, a sombra se abre também, se o homem se inclina, também a sombra se inclina (…) Nem todos os atributos de Allah se manifestam nesta sombra, mas apenas parcialmente.”13

Desta forma podemos compreender que este versículo diz que o homem foi feito à imagem e semelhança dos Espíritos superiores.

e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. Deus vem expressando Sua Soberana Vontade em todos os dias da criação; entretanto, neste passo ele fala de seu desejo para o homem mais especificamente.

Que ele exerça domínio sobre o reino animal foi bem compreendido pois a ele foi dado além dos cinco sentidos, inteligência, razão, a até mesmo a possibilidade mediúnica.

Portanto, podemos ver aqui um pouco mais e aprofundar nosso entendimento em relação à Vontade do Criador.

Se passamos por todas estas experiências evolutivas, se construímos nosso psiquismo estagiando em todos os reinos da criação, é natural que ainda tenhamos em nossa intimidade o instinto destas feras e que se não nos fizermos vigilantes aja uma eclosão destes sentimentos em nossas manifestações do dia a dia.

Analisando desta forma podemos entender que o Criador sugeria neste instante que o homem, de posse dos recursos já conquistados, e por nós enumerados, trabalhasse por dominar seus instintos pregressos, e que se foram úteis por um tempo, agora diante da possibilidade de um sentimento mais nobre, que o ligaria a seu objetivo final de espiritualidade, não teria mais fim.

Kardec com sua compreensão superior e seu magistral poder de síntese conclui assim ser objetivo da encarnação do Espírito a sua evolução, e na mesma noúre do redator bíblico afirma:

Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.14

E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; importante notar a coerência do redator bíblico, quando inspirado usou o verbo no plural, “façamos”, que como dissemos é atributo dos Espíritos, dizendo ser o homem a “imagem e semelhança” destes. Neste momento em que se refere a Deus, no singular, usa o verbo criar, em hebraico bara, que é um verbo que só tem Deus como sujeito, e não mais diz sobre a “semelhança”, mas que à imagem de Deus o criou.

Já dissemos em nossos comentários anteriores, a imagem reflete o objeto, porém numa dimensão menos expressiva. O homem foi feito à imagem de Deus, entretanto, não semelhante a Ele. O Espírito criado foi feito da mesma Substância do Criador, todavia não possui os mesmos recursos, um é Criador incriado, o outro, criatura.

Não dá para avançar mais por nos faltar vocabulário, o Absoluto não pode ser apreendido pelo relativo, é o que conseguimos expor no momento.

Mesmo assim, podemos caminhar um pouco mais deduzindo daí importante consequência moral. O Espírito criado à imagem de Deus, como dissemos, não tem, na totalidade, os mesmos recursos de Seu Criador, mas tem um potencial ainda não imaginado por seres de nossa faixa evolutiva, de realização positiva. Basta ver que os a Ele mais dedicados e afeiçoados, conseguem formar mundos e gerenciar sua evolução. Não por outro motivo que Jesus nos ensinou:

Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas (…)15

Assim, se quisermos aumentar a nossa capacidade de realização, de bem estar, e de equilíbrio, basta nos ajustarmos à Vontade de Deus, o que significa uma adesão à proposta transformadora do Evangelho. Não é milagre o que fazem os que assim procedem, eles simplesmente trabalham em si ampliando potenciais, construindo na intimidade o Reino que os capacitarão a tudo realizar, desde que em nome do Senhor.

homem e mulher os criou. Podemos ver neste versículo que aquela história do homem (masculino) ter sido criado antes da mulher, e que esta veio da costela dele, por isso o homem deve dominar a mulher, não está de acordo com o que nos informa o texto bíblico.

Sim, no capítulo segundo deste mesmo livro Gênesis temos esta afirmativa, da criação do homem primeiro e depois a mulher, mas quando chegar lá vamos ver que outra deve ser a interpretação.

Este capítulo primeiro, nos traz com lógica e bom senso que o “humano” em hebraico Adam surgiu na Terra por um processo evolutivo, e que esta humanidade era composta de homens e mulheres, ou de machos e fêmeas.

Jesus confirma esta interpretação quando questionado sobre a questão do divórcio:

Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez?16

Podemos ainda aprofundar um pouco mais e depreender destas colocações que o Espírito já em sua origem possui qualidades intrínsecas definidas de sua sexualidade, sendo assim positivo ou opositivo, masculino ou feminino desde o princípio. O que não impede, como sabemos, que na faixa humana, eles possam reencarnar ora como homem, ora como mulher.

André Luiz nos informa mais a respeito:

Todas as nossas referências a semelhantes peças do trabalho biológico, nos reinos da Natureza, objetivam simplesmente demonstrar que, além da trama de recursos somáticos, a alma guarda a sua individualidade sexual intrínseca, a definir-se na feminilidade ou na masculinidade, conforme os característicos acentuadamente passivos ou claramente ativos que lhe sejam próprios.

A sede real do sexo não se acha, dessa maneira, no veículo físico, mas sim na entidade espiritual, em sua estrutura complexa.

E o instinto sexual, por isso mesmo, traduzindo amor em expansão no tempo, vem das profundezas, para nós ainda inabordáveis, da vida, quando agrupamentos de mônadas celestes se reuniram magneticamente umas às outras para a obra multi­milenária da evolução, ao modo de núcleos e eletrões na tessitura dos átomos, ou dos sóis e dos mundos nos sistemas macrocósmicos da Imensidade.17

E em outro capítulo amplia:

Os princípios espirituais, nos primórdios da organização planetária, traziam, na constituição que lhes era própria, a condição que poderemos nomear por “teor de força”, expressando qualidades predominantes ativas ou passivas. E entendendo-se que a evolução é sempre sustentada pelas Inteligências Superiores, em movimentação ascendente, desde as primeiras horas da reprodução sexuada começou, sob a direção delas, a formação dos órgãos masculinos e femininos que culminaram morfologicamente nas províncias genésicas do homem e da mulher da atualidade.18

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra; a benção de Deus pode ser entendida como o coroamento da evolução definindo o fim de um ciclo. Todavia, da parte da criação para Deus significa um maior compromisso. Tendo adquirido qualidades no encaminhamento de seu progresso, o homem passa a ter o dever de agir multiplicando estas conquistas. O frutificai e multiplicai-vos não é só no sentido biológico, seres inferiores da criação também podem assim fazer, mas além disto uma multiplicação de potenciais. O homem é responsável por ajudar no processo evolutivo das demais criaturas a ele inferiores. E só assim fazendo, capacita-se a receber em si a bênção efetivando a conquista como algo implementado em sua intimidade.

É chegado deste modo, ao momento da evolução consciente, em que não mais sendo totalmente dirigido, o humano passa a gerenciar o seu próprio destino. Evoluir é também aumentar esta possibilidade de gerenciamento pelo despertar da consciência. E pela própria experiência vamos aprendendo que esta importante liberdade aumenta na medida em que espontaneamente cumprimos nosso dever elegendo o Bem do outro como fator fundamental para o nosso próprio enriquecimento.

Quando tal se dá, a terra, seja a íntima de nossos corações, ou da própria comunidade em que vivemos, torna-se cheia dos valores realmente representativos de comunhão com o Pai que assim designou para que fosse.

Dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. Já comentamos texto muito semelhante a este, dois versículos atrás, não sendo portanto, importante, repetir sem necessidade.

Resta apenas acrescentar que neste domínio sobre nossas próprias inferioridades, que são as imperfeições que nos fazem mover sobre a terra, ou seja, estar preso ao solo impedindo-nos de alcançar melhor condição espiritual, podemos ver nos peixes do mar e animais nosso psiquismo inferior, animalizado, sobre o qual temos de exercer domínio. O animal que move sobre a terra fala-nos dos interesses que dirigem ou fazem mover o mundo transitório, são os desejos e paixões da carne.19

As aves dos céus simbolizam nosso campo mental; é a necessidade do domínio sobre a mente. O homem evangelizado é aquele que domina a onda mental do mundo, e a sua própria, vinda do subconsciente fruto das experiências vividas de forma irrefletida.

Sobre este tema o apóstolo Tiago compreendendo esta necessidade mais profunda do ser nos informa que a espécie humana até conseguiu algum êxito no domínio sobre as feras, aves, répteis e animais marinhos, mas que sobre a “língua”, que justamente é um órgão que expressa nossa condição espiritual, não conseguiu sucesso em domá-la, ela é um mal irrequieto e está cheia de veneno mortífero20.

E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dê semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto que dê semente, ser-vos-á para mantimento.

Neste versículo temos uma questão de grande importância que é a da alimentação do homem.

Fisicamente podemos dizer que de certo modo o homem é o que ele alimenta, se alimenta bem tem boa saúde, se não, adoece com mais facilidade.

Como temos dito a nossa interpretação dos textos bíblicos tem de buscar o sentido reeducativo para o Espírito imortal; Jesus veio com o objetivo de trabalhar no homem os valores do Espírito, daí a importância de comentarmos estes textos à luz do Evangelho do Cristo, o que significa que temos a necessidade de em cada ponto buscar o sentido espiritual e transformador das anotações.

Assim, vamos priorizar o que diz respeito à alimentação espiritual.

É importante a colocação bíblica de que a erva que dê semente e a árvore em que há fruto que dê semente é que seriam dadas para o alimento do homem.

Nós temos priorizado as ervas e os frutos significando tudo o que tem substância - mesmo se for de natureza animal - em nossas preferências alimentares. E temos buscado colocar o alimento para dentro suprindo nossas necessidades de vitaminas, proteínas, calorias, etc.. Porém espiritualmente o processo é inverso, nós nos alimentamos do que sai de nós. O verdadeiro alimento do Espírito é o amor, e o que é o amor? Não é algo que se exterioriza de nossa intimidade profunda?

Vejamos que a orientação é que nos alimentássemos de erva e fruto que deem semente, ou seja, tanto faz erva ou fruto, o mais importante é a semente. Concluímos assim, que o verdadeiro alimento é a semente.

Ela representa tudo que tem a capacidade de evoluir, pois em si nada produz se não passar pelo processo de desenvolvimento e transformação. Confirma-se assim que o melhor alimento é o que sai. Desta forma, se preocupamos com o nosso efetivo progresso espiritual, em todas as faixas devemos priorizar o que podemos realizar. É sempre a necessidade operacional voltando para nos dizer do quanto é fundamental aplicar o conhecimento transformando-nos em seres sempre melhores e renovados.

Eis que o semeador saiu a semear…21; Deus não trabalha na essencialidade com o fruto, Ele dá a semente para que com ela possamos cultivar nossa própria libertação. Do mesmo modo somos responsáveis com o que semeamos, pois já foi falado que o Bem do outro é o que verdadeiramente nos faz ficar bem.

A expressão eis que vos tenho dado mostra-nos que em todo encaminhamento da vida foi assim, que será sempre assim, a Lei é Unidade, e este é o processo de funcionamento do Universo. Se queremos o nosso aperfeiçoamento e como tal nosso equilíbrio, ajustemos a este mecanismo universal, não fui eu quem disse isto, o texto é claro: e disse Deus…

Compreendemos desta forma o porquê dos sofrimentos; podemos de certa forma afirmar que preferimos evoluir pela dor já que nos foi dada a opção de escolha e optamos pelo alimento indevido. Tudo por que passamos nada mais é do que um processo de digestão complicado, ora é uma diarréia, outras vezes uma prisão de ventre, uma dor de estômago ou de fígado. Importa-nos porém tomar consciência de que o processo de saneamento de todas estas dificuldades está em nossa mão, pois cabe a cada um de nós, no mínimo, saber escolher os alimentos devidos. No afã de auxiliar, lembramos a todos as palavras de Jesus:

Eu sou o pão da vida.22

E a todo o animal da terra, e a toda a ave dos céus, e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente, toda a erva verde será para mantimento; e assim foi.

Não há muito o que comentar sobre este versículo visto já termos nos comentários dos anteriores exposto a respeito.

Importa-nos aqui apenas salientar que animal da terra, ave dos céus, réptil da terra, expressam o princípio inteligente em vários momentos distintos de sua evolução, definindo que, mesmo na faixa hominal, há vários graus de manifestação evolutiva dos Espíritos.

Assim, em um mundo diverso como o nosso existem convites para nos alimentarmos de vários modos. Se no plano físico há diferenças de sabores e gostos, o mesmo podemos dizer na esfera do Espírito que se alimenta de forma mais sutil.

Portanto, temos de nos ajustar àquilo que verdadeiramente desejamos e assim selecionar a onda mental que nos alimenta. Em tudo, na literatura, nas conversas, na televisão ou no cinema, há nutrição espiritual. Uns, mesmo psiquicamente, gostam de algo mais materializado, outros o que promove o Espírito. De nossa parte é prudente selecionar o melhor de acordo com nosso objetivo, sabendo entretanto, compreender aqueles que por menor discernimento espiritual ainda se encontram amarrados à retaguarda, sem assim julgá-los. Muitas vezes, existem nestes um sentimento nobre e uma alegria de viver que estamos longe de alcançar. Selecionar sim, elitizar não.

E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

Temos aqui o findar do dia sexto. Este dia é assim a consolidação do que estava sendo feito nos momentos anteriores. Importa-nos aprender que a santificação do sábado, que será o tema do início do próximo capítulo, deverá ser feita dia a dia, em cada momento que passa. Só chegamos ao sexto dia se trabalharmos adequadamente nos anteriores. Em cada um vemos a expressão ”e viu Deus que era bom” definindo que devemos realizar bem em cada momento e assim construir a qualidade do todo.

A etapa terminará no sétimo dia, entretanto, cabe aqui um cuidado especial com este sexto lance, pois esta consolidação de que falamos representa um momento de grande importância para o prosseguimento do processo.

É como aquela prova final do ano letivo que trabalha o conteúdo aprendido no decorrer de todo período. Em matéria de promoção espiritual representa oportunidade de aferição de valores, será uma verdadeira crucificação dos antigos hábitos que devem ser eliminados para a efetiva conquista de nobres virtudes que se manifestarão na ressurreição do Espírito.

Estamos passando por uma fase de evolução planetária que define bem este “sexto dia”. Notamos que em nosso atual momento tudo é permitido, não há mais um padrão único de conduta, a moda, os hábitos, a própria ética, tudo é questionado, criticado, para que surja um novo paradigma em todas as áreas do conhecimento e de comportamento.

São as aferições por que devemos passar visando nossa promoção a uma nova etapa, daí a necessidade de vigilância, de seleção, e de optar com segurança pelo caminho correto que vá nos levar à harmonia que desejamos.

Em cada lance anterior se fizemos bem foi muito bom, entretanto agora é nos exigido um pouco mais, o controle de qualidade é mais exigente. A expressão e viu Deus que era muito bom define esta necessidade de fazer ainda melhor, sugerindo também que se trabalhamos nossa individualidade com atenção e carinho, agora é hora de aplicar tudo o que conquistamos em favor de toda comunidade, de ampliar nosso serviço.

Não é à toa que mesmo no mundo laico se trabalha uma idéia de voluntariado e globalização, há a necessidade de servir e trabalhar com grupos cada vez maiores promovendo a partir de cada um, de nosso pequeno grupo, e ampliando cada vez mais nosso círculo de convivência, aquela profecia de “um só rebanho e um só pastor” onde cristianizados elegeremos Jesus e o Seu Evangelho como norteadores de nossa evolução.

1 (XAVIER F. C. / Emmanuel (Espírito), 1980), cap. I

2 (XAVIER F. C. / Emmanuel (Espírito), 1980), cap. 2

3 (KARDEC, 1980), questão 59

4 KARDEC, Allan. A Gênese, 26a Ed., RJ, FEB, 1984

5 (XAVIER F. C. / Waldo Vieira / André Luiz (Espírito), 1993), cap. 3

6 FREIRE, Gilson T.. Arquitetura Cósmica:dos mitos da criação à visão unitária do universo. Belo Horizonte: Inede, 2006.

7 (KARDEC 1980), Q. 536 b)

8 Sugerimos aos leitores voltarem ao nosso comentário de Gênesis, 1: 1 no início deste livro.

9 Cf. (XAVIER / André Luiz [Espírito], 1993), cap. 1

10 Gênesis, 3: 22

11 HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico da Língua Portuguesa, versão 1.0, ed. Objetiva, 2001

12 Idem, ibidem.

13 Extraído de (CHOURAQUI 1995), pg. 48

14 KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 104ª ed., Rio de Janeiro, FEB, 1991. Cap. XVII Item 4

15 João, 14: 12

16 Mateus, 19: 4

17 (XAVIER/Waldo Vieira/André Luiz [Espírito] 1993), 1ª parte, cap. 18

18 Idem, ibidem, 2ª parte, cap. 32

19 Cf. Gálatas, 5: 16

20 Cf. Tiago, 3: 7 e 8

21 Mateus, 13: 3

22 João, 6: 48

 


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